Entrevista: Vanessa da Mata e o poder de saber o que quer

Foto: Rodolfo Magalhães

Em tempos de padronizações, desvalorização do amor e banalização do que é belo, inclusive na arte, Vanessa da Mata, cantora de hits populares, coloca em seu novo registro, "Quando Deixamos Nossos Beijos Na Esquina", o dedo na ferida. Não de forma ácida, mas, sim, de um jeito humano de observar as coisas, a cantora critica os desamores vividos por nossa geração (inclusive a falta de amor próprio) ao mesmo tempo que engrossa o caldo com poesias românticas.

Vanessa não chora por nossos tempos atuais, porém retrata e se opõe a todas as mazelas que pairam sobre a nossa atmosfera. Prova disto é que o seu novo disco há sim canções amorosas, dançantes, sobre ilusões e de raízes, que levam para um lado mais particular. Vanessa da Mata aqui, toma as rédeas e faz, se não o melhor, um dos melhores discos de sua carreira - o primeiro produzido pela própria. 

Em entrevista ao Eufonia, a artista nos conta sobre seu mais recente lançamento, dilemas do mundo atual e a adoção de seus filhos. Confira: 

EB: O que te fez sentir que esta era a hora de você se aventurar na produção musical e não antes?
Vanessa: Eu tive várias aulas, aulas práticas, com meus produtores ao longo de toda a minha carreira e eu tenho mania de escolher pessoas que acho que são as melhores. Liminha, Kassin, Mário Caldato Jr. A convivência com os melhores músicos que eu pude ter...eu não poderia ter coisa melhor fazendo música brasileira, da qual tenho orgulho de participar e pertencer.

Eu senti que estava pronta a partir de uma direção que eu dava antes, com eles, e que, por muitas vezes, por terem um estilo próprio, eles não acatavam. Faziam ali um meio a meio, em respeito à cantora e, de certa forma, isto me afligia muito. Inúmeras vezes tivemos diversas discussões dentro de estúdio porque eu não gostava do arranjo de cordas, do tipo de mixagem. Era um desgaste, porque eu também sou forte, tinha uma opinião e não não queria desistir dela. A partir daí eu fui vendo que eu já tinha uma direção, que tinha escolhas e que poderia discernir. Ser prática no momento em que teria que ser, porque o produtor faz isso, e, enquanto cantora e, no meu caso, compositora, que é pior ainda, eu tive que não me apegar em algumas músicas, não sofrer por tirá-las. Escolher uma ordem, um núcleo que dava a cara de um disco. 

Foto: Rodolfo Magalhães

Achei que podia fazer, estava muito segura para isto e feliz. Não me deixei ser aterrorizada pela pressão de tudo isso, até porque poderia ter dado muito errado. Resolvi me deliciar com aquilo, curtir...o que me disse que estava pronta era o fato de eu saber o que queria, em questão de influências, sonoridades.

EB: Uma das letras mais críticas de seu novo disco é "Nossa Geração". Ela fala um pouco sobre estarmos perdendo o contato, o debate, a sensibilidade, a aceitação pela diferença. É um retrato nada bom. Vendo deste prisma, a humanidade tem solução? O que precisamos fazer para reverter isto?
Vanessa: Eu acho que a humanidade caminha muito devagar. Fico vendo pensadores falando que a gente está em um limbo entre o primitivo...isto é, uma espécie de buraco, entre o o anterior e o que virá. Na minha cabeça vejo que a gente anda um pouco e retrocede, anda e retrocede. Fica nessa tentativa de sair do padrão e...retrocede, porque existem muitas pessoas que continuam na década de 50 e estas da década de 50 participam muito de um pensamento primitivo, que não sai do lugar, e não conseguem lidar com os que já andaram, com os mais modernos, que sabem ter uma família mas não é mais aquela família tradicional. Tem carinho, tem amor, divertimento e em uma forma respeitosa. Fora as coisas básicas de valores, que muita gente confunde. Valor, para mim, é respeitar o ir e vir do outro, o que ele acredita, questão de religião, sexualidade.

Educação, que nos últimos tempos, principalmente na América Latina,  tem sido abandonada de uma maneira catastrófica. Isto é investimento de um povo e quando você não investe nem nos seus empregados, você os mantém sendo sub do sub do mundo. Isso, a longo prazo, acho extremamente preocupante. Inclusive, temas nada profundos, desde assistir uma novela e não entender, até um diálogo normal, que não consegue exprimir, então, portanto, não se entende. É quase um sub ser humano. Uma pessoa que não consegue conversar parte para a briga. Isto confirma a falha de um Estado que não consegue nos proteger e nem nos dar educação. 

Foto: Rodolfo Magalhães

Existe, lógico, uma intolerância no mundo, mas é muito diferente um país que tem tamanha luz e tamanha escuridão. Você tem os piores e melhores recordes no Brasil. Temos mais assassinatos do que países em guerra, fora violência contra população LGBTQ, pedofilia, que, se ainda não foi provado, com certeza temos um dos maires índices. E, tudo isso, vamos jogando para debaixo do tapete. É muito sério, cada vez mais vamos criando um turbilhão de ódio, adultos que matam, que batem em mulheres, que se matam. Precisamos falar sobre isso. Esse ego exacerbado, essa falta de paciência, para mim, tem muito a ver com a falta de educação, informação e, principalmente, de leitura, que acontece no mundo todo mas é muito devagar perto do Brasil. Se você for comparar com países de primeiro mundo, o brasileiro não lê. A gente não deve fazer comparação com essas nações, mas, se queremos ser primeiro mundo precisamos visualizar isto. E eu quero ser primeiro mundo. Temos que fazer o contrário do que estamos fazendo, colocar dinheiro na educação e preparar nossos professores para que, realmente, a gente seja alguém algum dia. 




EB: O Mundo Para Felipe" é uma música que fala sobre saudades e também sobre "soltar as asas" do seu filho. Como que você analisa a sua pessoa, a sua evolução como mãe e mulher, desde a adoção de seus filhos, o quanto eles mudaram você? E como que é chegar nesta fase de afastamento, deles irem enfrentar o mundo sozinhos? Rola uma crise?
Vanessa: Esta é uma música que me emociona muito desde o início. Só parei de chorar, cantando esta música, nos ensaios depois do disco. Foi um sofrimento, toda vez que eu ia pro caderno, para escrever, mexer na letra, eu acabava chorando. 

Acho que a adoção é extremamente forte em todos os sentidos, principalmente se for tardia. Ela mexe no íntimo de uma maneira que nenhum psicólogo, amigo ou namorado é capaz de fazer. É muito profundo e, talvez, em algum lugar, tenha a ver com seus ancestrais, com assuntos que você nem imagina que são seus. Até porque você está lidando com abandono, com tristezas profundas. E, isto é você. Todo ser humano lida com isto, mesmo que seja extremamente amado.

Foto: Rodolfo Magalhães

Essa dor profunda existe em qualquer ser, este medo existe. Acho que até por isso muita gente não quer adotar meninos maiores, porque vai lidar com um outro trabalho além de um bebê. E é forte, ao mesmo tempo, extremamente delicioso. Lidar com as respostas disto, com as mudanças. É muito interessante quando você tem uma resposta intuitiva, que você diz "opa, isso eu falei para ele estes dias, então ele está me ouvindo". Por mais que muitas vezes demore um pouco mais, por todos os problemas e dificuldades: falta de memória da criança adotiva, falta de autoestima. Isto faz com que muitas vezes você dê e ela não consiga entender que aquilo é afeto, importância, etc.  

A minha evolução como mãe, bom, acho que a gente só entende que é adulto, primeiramente quando trabalha e provê seu próprio sustento...mas é muito absurdo quando você percebe que tem filhos. Você imediatamente nasce como adulto e tem uma sensação que não vai conseguir (risos). Parece muito fácil, mas de repente quando vem os problemas existe uma sensação de "eu vou chamar minha mãe" (risos). Ainda bem que minha mãe é diretora de escola. Ela foi e é extremamente importante. Eu tive uma vó, que teve 27 filhos ao longo da vida, 20 eram adotivos. Então eu tinha uma ideia do que era criar filhos com questões diferentes. 

Para mim, como mulher, como mãe, foi uma surpresa gigantesca. Primeiro, diante de tantas possibilidades, eu escolhi essa maternidade e isso me traz muita...fico envaidecida comigo mesma, como ser humano. Sou uma mãe adaptada par ao mundo moderno, sou aquariana, então eu crio meus filhos para serem independentes. Tenho horror em dependência de qualquer coisa. Drogas, paixões avassaladoras, submundos. Eu preparo meus filhos para o mundo. Por exemplo, tenho orgulho deles saberem dois idiomas. Ver que um, com oito anos e meio, só sabia três cores e hoje está indo para o terceiro idioma fluente é uma conquista inacreditável. 



Quanto ao afastamento, é muito duro. Tenho um certo alívio por eles não estarem no Brasil neste momento. Teve um período, no Rio de Janeiro, que toda semana uma criança era morta. E eles sentem muito com essas coisas, porque eles eram de lugares com este tipo de violência e abandono. E o Brasil tem esta coisa, da população mais pobre estar sempre nos lugares mais vulneráveis, em todos os sentidos.

EB: O seu novo show conta com faixas do Charlie Brown Jr ("Céu Azul") e Caetano Veloso ("Leãozinho"). São canções mais serenas. Por que a escolha destas músicas para entrar no repertório? 
Vanessa: Eu fiz um projeto com o Charlie Brown há muitos anos atrás na MTV e foi, musicalmente, muito forte. Éramos muito diferente, o Chorão tinha muito dessa coisa de ser positivamente pra si mesmo e tenho trazido  essa música para ser isto, trazer ele, deixar ele dançando, cantando. Esta era a imagem que eu queria ter dele neste momento. 

Quando ao Caetano, é uma música simples, gostosa, de certa forma brejeira, da praia. Tinha a ver com a minha juba, com o meu leãozinho, com eu cantando um agudo, um registro mais suave que achei que valia muito a pena ali. Acho que a gente trouxe uma ideia bem diferente para ela e aí ela teve a ver com tudo. E trazia a tropicália de volta, junto com meu estilo. Isso é interessante de fazer. 

EB: Você chega ao sétimo álbum com um bom catálogo de hits fomentados durante a carreira. No processo de gravação, produção, composição, enfim. Em algum momento você pensa que o novo trabalho precisa ter um novo hit? Como você lida com isto? Te preocupa?
Vanessa: Eu faço muitas músicas o tempo todo e já me enganei muito sobre o que é hit e o que não é. Por exemplo, "Boa Sorte" ia ficar de fora do disco. 

Neste álbum tinham duas músicas fora, que eu consegui arrumar na mixagem e achei que elas tinham uma cara boa para entrar. Foram: "Vá Com Deus" e "Hoje Eu Sei". Fui trocando os arranjos, mexendo com elas e hoje eu vejo pela audiência que essas canções estão entre as mais ouvidas do álbum. E isso é uma surpresa para mim. 

Sei que existem músicas que são mais populares. Mas não tem como escolher, se não eu faria um disco só com canção popular.  Um álbum só de hits (risos). Seria ótimo. Mas não é bem assim, não existe esse controle. 




EB: Em "Dance Um Reggae Comigo" você diz "Presa eu não sorrio, presa eu não gosto, presa eu não me entrego, presa eu não vivo. Quem é solto não precisa de aditivos". O que exatamente é ser presa neste sentido?
Vanessa:
Bom, é de novo uma angústia aquariana de prisão. Qualquer tipo de prisão. Desde a de aditivos mercadológicos: no meu sentido musical, este é o meu primeiro álbum que lanço por uma agência, fora de gravadora. E isto vai até, como já falei, drogas, que as pessoas usam sem contexto, sem nenhum grau de respeito por si mesmo, etc.

Até mesmo relações amorosas, tóxicas. Este disco fala muito sobre isto, pessoas que colocam sua instabilidade...a culpa disso no outro. Nos últimos anos eu vi muito sobre mulheres que se mataram porque o ex terminou, mulheres que fazem chantagem emocional, tenho visto muito isso e me impressiona o quanto as pessoas fazem de tudo para ter uma relação mesmo não tendo estrutura nenhuma de cuidar de si mesmo. 

Você depender de uma outra pessoa para saber que pode ser ou ter alguma coisa é muito ruim, não é digno. Esse aditivo é horrível.

Foto: Rodolfo Magalhães


EB: Em "Demais Pra Mim" você canta uma relação mais carnal, mais intensa, e fala sobre o sagrado e profano. Qual é o ponto de transição entre o sagrado e o profano em uma relação? O sexo ele pode ser profano, mas também não pode ser divino?
Vanessa: Essa música fala de uma atração que não é bem compreendida. Não gosto muito de traduzir as letras, cada um entende de uma forma e eu gosto muito que as pessoas façam dela parte de sua vida...coloque de uma maneira que ela vai entender, conforme sua vida está acontecendo, já aconteceu ou vai acontecer.

"Demais Pra Mim" tem uma conotação de atingir o céu né, essa pequena morte que as pessoas falam no francês, que é o gozo. Nas religiões antigas, a mulher era uma semi-deusa porque ela fazia o homem chegar em um estado próximo de Deus e, ao mesmo tempo, ela era parceira de Deus na criação, pois ela fazia junto com ele o ser humano. A sexualidade, totalmente, tem os dois lados. E muita gente tem relações tóxicas porque o sexo é muito bom, forte. A atração sexual é baixa, no sentido de energia mesmo. Você sente que a pessoa não é boa, é uma espécie de aperto, genital mesmo.



Então, tirando a relação sexual, aquilo ali não tem nada a ver. Não vai para frente. Muitas vezes é esta relação que se precisa ter cuidado. Ela te coloca em um lugar próprio muito ruim. Traz ápices da sua personalidade que você não gosta, força estados que normalmente você não tem, não exibe. São pressões bem intensas, causadas por essa sexualidade extremamente profana. E existem outras relações que tem essa sexualidade que é deliciosa, divertida e a, ao mesmo tempo, você não perde a cabeça, tem uma relação um pouco mais qualitativa, que, inclusive, te traz um lugar seu que é belo, poético, sonhador, evolutivo e, com certeza, será mais durável, porque tem equilíbrio.

EB: Vanessa da Mata está ultimamente mais sagrada ou profana? 
Vanessa: Ah, eu sempre tive os dois (risos). Em lugares onde eu possa ver, dar uma limpada, ponha às vistas ou não.

EB: Este é o seu primeiro disco com você na casa dos 40. Há alguma diferença quando se chega nos 40 anos? Para questões de rotina, de autoestima, de shows.
Vanessa: Apesar de você perder muitas coisas que a juventude te dá (muita energia, comer o que quiser, etc) por um outro lado você tem a liberdade de ganhar coisas que é tranquilidade, experiência, o trato da ação e reação, saber das consequências, o fato de você conhecer muita gente, não ter mais o mesmo nervosismo, sucumbir a pressão alheia...ser mais generosa comigo mesma é uma coisa incrível que a maturidade me deu. 

Foto: Rodolfo Magalhães

Celebrar cada conquista é algo que eu não fazia comigo. Sempre fui exigente e, de certa forma, era meio que insuportável para mim mesma. A rotina, cada vez mais, tenho que me policiar porque é uma coisa que sempre fui dispersa. A minha rotina é a não rotina. Os meus filhos, por exemplo, eu sempre tive que criar um hábito com eles e isto é uma coisa que me tira do sério. É muito maçante, entediante. Eu tenho horários trocados, durmo muito tarde, trabalho nos finais de semana. Procurava sempre almoçar com eles, jantar, mas isso era uma coisa que me deixava doida, era muito difícil. 

EB: Para terminar, o que esperar do seu novo show, de cenário, repertório e próximas paradas?
Vanessa: Esse show tem todas as nuances da minha carreira em geral. Tem as músicas que não podem faltar, que são as que todo mundo canta e outras canções que entraram com roupagens novas, ideias novas de interpretação. Tem um cenário que eu adoro, que é meu e que é sensível, orgânico, parece uma arte popular. É uma coisa que está teatral, forte, sensível. 

As pessoas têm dito que este é o meu melhor disco da carreira e o melhor show da carreira. Já por isso eu digo que vale a pena...eu prezo muito pela letra, pela música. A música não é descartável, minhas canções têm a ideia de falar para você, de te buscar em um lugar que você escondeu e tá fingindo que não vê, em te fazer pensar, sentir, pular certos lugares que você não quer estar, chacoalhar, sensibilizar. Um show não é uma calça jeans, uma coisa material, ele precisa ser visto de uma maneira mais sensível, que te traz e que te faz  ultrapassar coisas que com uma coisa material você não consegue. Te sensibilizar em pontos que te fazem crescer, te perceber no mundo, te trazem um alento gigantesco, um afeto consigo.
  

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