Resenha: densidade de 2018 é refletida com requinte além dos padrões atuais por Djavan em "Vesúvio"

Foto: Nana Moraes

Enfim o ano extremamente intenso de 2018 chega ao seu fim e como reflexo de aura tão densa, temos o 24° álbum de Djavan, "Vesúvio", editado pelo selo do próprio artista, a Luanda Records, com distribuição da Sony Music. Na ativa desde os meados dos anos 70, o cantor, compositor e multi-instrumentista proveniente de Maceió já tem seu legado entregue, com uma discografia rica, que transita entre hits hiper populares que tocam até hoje nas FMs do país e canções com uma estética que não chega ao erudito, mas que, sim, tem uma característica de um jazz mais complexo.

A tamanha pluralidade do incansável músico é sintetizada em "Vesúvio", álbum que, embora tenha sido vendido como, não é pop, mas tem canções que entram neste catálogo (embora não se encaixem no padrão popular atual). Porém, não é um disco de difícil assimilação. Também não é um compilado que condensa a carreira de Djavan, é um registro atual, rico em detalhes e com letras inspiradas.

A sonoridade profunda e rica em detalhes, predominante por quase todo o álbum, é dada de cara logo na faixa-título, que é, também, a canção de abertura. O violão, que dá pitadas de flamenco para a faixa, aponta característica identitária do artista logo no início.


"Solitude", música que antecipou o álbum com edição em single, aponta em sua letra uma visão pessimista e política dos dias atuais. "Guerra vende armas/Mantém cargos/destrói sonhos/Tudo de uma vez/Sensatez não tem vez", diz trecho.

Já "Dores Gris" tem uma construção sonora distante dos hits radiofônicos. A canção se inicia como uma leve e calma bossa e progride até um refrão inflado com base em elementos jazzísticos.

"Cedo ou Tarde" é a música solar do disco. Um funk, com groove altamente inspirado de Arthur de Palla (contra-baixo). O músico, aliás, é um dos novos da banda de Djavan (o grupo toca em todo o registro). Além de Arthur, Felipe Alves (bateria) também é novato. Acompanham os músicos, os já recorrentes Torcuato Mariano (guitarra); Paulo Calazans (piano) e Renato Fonseca (piano).


O pop rock "Viver é Dever", embalado pela guitarra de Torcuato, também tem ambiência sonora solar. A letra é um panorama, nada otimista, dos dias atuais. "Tudo vai mal, muito sal/Nada vai bem pra ninguém/Nessa pressão/quem há de dar a mão?/Pra que o mundo saia lá do fundo pra respirar/E não morrer", diz trecho inicial. Djavan mostra na música que é preciso fazer muito mais para se melhorar as coisas. "Tem que plantar muito mais/Reflorestar ideais", diz parte seguinte da letra.

No disco ainda teve espaço para as melancólicas "Tenho Medo de Ficar Só" e "Madressilva", além do bolero "Meu Romance", lançada também como faixa-bônus (com o nome "Esplendor"), em parceria com o artista uruguaio Jorge Drexler.

"Vesúvio" nasce em 2018, ano de divergências e conflitos em que a música pop foi feita como se fosse fast food. Não para Djavan, que mantém requinte, sabedoria e sensibilidade em sua obra. Na estética, a beleza importa e isto vale para a música pop. O artista sabe disso. A prova é a tentativa de fazer o melhor, de soar belo e agradável mesmo em dias sombrios.


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