Entrevista: "Somos a forma mais nua do ser humano", diz Kell Smith

Foto: Divulgação

Pouca coisa se sabe ainda sobre ela. 25 anos de idade, cabelo curto, tatuagens por todo o corpo. Um jeito diferente de cantar. Muito provavelmente você já ouviu a voz de Kell Smith. Seja no rádio, nas plataformas de streaming ou em trilha de novela. Jovem, não apenas em relação a vida, mas também na atmosfera musical. 

Kell Smith é filha de pastores missionários. Nascida em São Paulo, desde que nasceu passou a viajar pelo país. Não existia uma residência fixa. Tinha uma vida itinerante. "Era complicado. Não tinha possibilidades de criar laços", conta Kell. As constantes mudanças não só ocasionaram em poucas amizades mas intensificaram o bullying que a artista sofria na infância. 

"Eu era a garotinha esquisita, filha de pastor. Nesta época vivíamos sob doutrinas mais rígidas sobre vestimentas. Então tinha todo este bullying. E também por ser novata. Imagine: você se veste diferente, se comporta diferente e, como eu vivia um pouquinho em cada escola, já ia com o intuito de aprender. Eu sabia que não ia dar tempo de criar laços", conta. 

Ainda que tenham existido estas dificuldades, em especial no período da infância, Kell vê que aprendeu muito com a igreja, tanto no quesito musical quanto em valores como fraternidade, esperança e fé. "É um ambiente complicado, como qualquer outro. A igreja se manchou pela figura dos líderes autoritários. Mas não conheci um Deus que ame só um tipo de pessoa. Não aprendi assim. Este bullying todo da escola foi amparado pela igreja, um lugar onde tinha fraternidade, amor e onde eu pude conhecer muitas culturas, costumes, culinárias", comenta. 

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Por estar na igreja, a música sempre estava ali. Mas a paixão veio com Elis Regina. O disco "Falso Brilhante" foi apresentado pelo pai e ampliou os horizontes da ainda jovem garota que não fazia ideia do futuro que vinha pela frente. "Eu queria ser tanta coisa. Já quis ser cientista, professora. Achei que ia ficar na área financeira. Até que eu descobri que não queria ser nada...que eu já era", diz a artista.

Todo este trâmite levou Kell Smith a Presidente Prudente. Há quatro anos atrás, a artista começou a se apresentar em barzinhos, impulsionada pelo pai. Apresentava apenas covers. A primeira canção autoral, "Viajar É Preciso", foi feita justamente para mandar para Rick Bonadio, hoje seu produtor. 

"O Rick era uma pessoa que eu nem conhecia. Não tem como dizer que a minha música mudou quando comecei a trabalhar com ele, porque começamos juntos. Eu não sei como seria sem ele", explica Kell.  "A música me fisgou pela oportunidade de fazer dela veículo de uma mensagem. Passar sentimentos. De ser muito mais do que apenas entreter...e ser artista é isto aí. A única coisa que difere o artista de outras pessoas é o sentir de uma maneira intensa, a ponto de ser nu.Você perde de ser uma pessoa só e descobre um mundo muito mais legal, muito mais real. É aceitar que você é muitos", completa. 

Ser artista

Após tantas viagens e experiências distintas, a pequena garota que sofria bullying na infância cresceu, enfrentou barreiras e adentrou a estrada para o sucesso. E, quem diria, o sucesso veio em um hit que fala justamente sobre a infância. "Era Uma Vez", o dito hit, ultrapassa rótulos e leva a música na frente do nome da cantora. "Eu fiquei feliz por isso. As pessoas conheceram a minha música antes do meu rosto", conta. Sobre seu processo criativo, a artista explica: "A parte crua da música eu faço com meu melhor amigo. Depois eu mando pro Rick, ele visualiza e fazemos meio que juntos". 

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Em meio de tanta produção cultural, Kell Smith se destacou logo em seu primeiro trabalho, "Girassol", álbum lançado neste ano. A cantora enxerga que tudo aconteceu mesmo muito rápido. Mas vê também dificuldades na vida artística.

"Quando você se expõe é um caminho sem volta. Tem que ter muita maturidade e psicológico...artista não tem muito psicológico. A gente vive intensamente cada coisa. Imagina viver tudo o que acontece neste mundo louco. Você tenta filtrar, mas se você é sensível o suficiente pra sentar em frente ao caderno e escrever...é uma coisa muito louca. Você falar sobre amor, olhar para o lado e notar tanto desamor. Você falar sobre esperança quando já está meio baqueado. As pessoas às vezes têm uma visão do artista como semi-deus. Mas é o contrário. Nós somos a forma mais nua do ser humano", explica. 

"Imagina sofrer e ter que escrever sobre aquilo. Falar sobre o que viveu. Um artista que fala sobre o que não viveu é meio que como um falso profeta (risos). Existe uma dificuldade de gerir, absorver, de saber qual é a melhor decisão a se tomar. Ao mesmo tempo, não representamos nós mesmos. Nós representamos, de alguma forma, este pessoal que vai consumir nossa música. Você tem que estar atento ao que as pessoas estão vivendo e sentindo. É claro que, é quase impossível você traduzir o que todo mundo sente. Mas tem sentimentos que nos une. Você meio que, quando fala do outro, se esconde, no sentindo poético, não sombrio. Você se sente mais seguro falando do outro do que propriamente de você ", completa

Hit 

Pode ser que você imagine que ter um hit logo no início da carreira eleve uma pressão ao artista. A tal pressão pode existir, mas Kell Smith tem um jeitinho de encara-lá. "Levo isto como combustível. É natural. Quando você é menos conhecido que a sua música, existe uma pressão do público para você ser maior que a sua música", conta.

Em tempos de extrema produção cultural, a cantora quer muito mais do que elencar paradas do streaming. "Eu acredito no hit como atemporal. Hoje, existe muito a coisa de ter que lançar coisa nova porque todo mundo está lançando novas músicas e você não pode ficar para trás. Não acredito nisto. Quero fazer música para agora e para daqui cem anos", ressalta. "Para se destacar diante desta grande produção cultural, só fazendo música boa. A música precisa ter um propósito, seja qual for. Acaba sendo sem propósito quando é apenas um produto. É feito apenas para venda. Vira descartável. E hoje em dia é assim, né. As pessoas não consertam mais as coisas quando quebram", completa.



Para criar assuntos de temas abrangentes e populares, Kell faz o que chama de laboratório. Ela costuma perguntar e pedir opiniões para as pessoas. "Em 'Era Uma Vez' eu perguntei do que as pessoas sentiam saudades. A maioria me dizia sobre algum momento da infância. Me senti meio que em uma obrigação poética em falar sobre isto", conta.  "Eu voltaria minha infância inteira. Mas tem que crescer também. Me orgulho muito daquela fase, mas eu não gostaria de ser criança nos dias de hoje. Imagina! Trocar toda aquela mágica por tablets, smartphones e notebooks. Seria muito esquisito (risos)", completa. 

Quem nunca se sentiu estrangeiro?

Uma das canções presentes em "Girassol", é "Marcianos", faixa que fala sobre preconceitos. A fase em que Kell viveu na infância se relaciona com a canção. Mas a composição vai além disto. "É um grito que diz: 'hey, respeita, somos diferentes'. Quem nunca se sentiu estrangeiro? Tem vezes que você fala 'caramba, eu não faço parte deste grupo'. Aí olha pro outro e fala: 'não faço parte deste aqui também'. Aí se você não faz parte destes grupos você pertence a um grupo que não pertence a grupo nenhum. São muitas opiniões sobre tudo e sobre todos, quando, na verdade, nós somos únicos", conta.

 
Assim, cheia de sentimentos, posicionamentos e a vontade de colocar sua música na historia, Kell Smith começa sua trilha na música brasileira. Ninguém sabe o que vem por aí e nem como estará nossa música daqui 20, 30 anos. O que sabemos é que Kell não quer o modismo e nem ser passageira. 

"Espero me descobrir uma artista maior do que penso que sou. Maior com a minha obra. Espero, no futuro, ter um conhecimento muito maior dentro da arte. Conhecer novas músicas, novos ritmos. Conhecer o Brasil. E compor sem ser alheio às pessoas, sempre falar sobre o que está acontecendo em volta", finaliza.

Show em São Paulo

Como divulgação de seu álbum de estreia, "Girassol", Kell Smith se apresenta em São Paulo, no próximo 8 de novembro, no Bourbon Street. "Minha maior vitrine artística é o palco. As pessoas vão me conhecer lá, vão ver como eu me movimento, como eu penso, o que falo. Como eu sou, realmente", diz a cantora. Os ingressos para a apresentação custam a partir de R$50,00. 

Serviço

Kell Smith no Bourbon Street
8 de novembro
Rua dos Chanes, 127
R$50,00
20h30 
Ingressos: Ingresso Rápido


















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