Inocentes, Cólera e Vespas celebram o rock sem barreiras com show em São Paulo

Foto: Maria Fernanda

Os anos 80 foram uma loucura. No início da década, os punks, provenientes das periferias, se espalhavam pela cidade de São Paulo com canções contestadoras, diante a um sistema sem perspectiva para o futuro. Mas isto não surgiu do nada. Tudo começou lá fora. O movimento punk foi caminhando e ganhando forma desde os anos 60. Era o chamado protopunk do MC5, Velvet Underground, Stooges e companhia. O punk, de maneira concreta, explodiu em 1975, na Inglaterra, com os Sex Pistols. O movimento, antes apenas contestador e de protesto, virou uma revolta de estilo. Foi criada uma nova moda, novas formas de imprensa especializada e, assim, foram rompidos muitos padrões além dos musicais. O mundo inteiro seria influenciado, inclusive o Brasil.O punk em nosso país nasce não como uma cópia, mas uma adaptação à realidade local.

Quando o movimento punk paulista chegou à esfera da mídia, o de caráter inglês já tinha esfriado. Mas uma cena gigantesca foi criada por aqui. Kid Vinil mostrava na rádio canções punks e new wave, que quase ninguém conhecia, simplesmente porque não tinham adentrado a esfera nacional. No Rio de Janeiro, Maurício Valladares, dentro da Rádio Fluminense, divulgava músicas (muitas vezes em versões demo) de bandas como Blitz, Legião Urbana, Paralamas do Sucesso e muito mais. Houve, é claro, uma vanguarda. Podemos citar Walter Franco, Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção e até mesmo Raul Seixas, que, já nos anos 70 (os anos de chumbo no Brasil) explicava, em rede nacional, a canção "Gita", uma contradição às religiões consideradas tradicionais, em especial para a época. Raul já era punk sem mesmo saber. Mais à frente houve também o pós-punk do Smack, Voluntários da Pátria e Mercenárias. E como esquecer a new wave da Gang 90 e do Kid Abelha e Os Abóboras Selvagens?

O fato é que todas estas agitações que antecederam, ou que aconteceram nos anos 80, foram responsáveis por emergir o chamado BRock, que gerou sucessos que ficaram na atemporalidade. Criou-se uma espécie de rede, até mesmo no underground. As bandas tocavam juntas e transitavam em uma cena que era realmente forte. Esta é uma cultura que parece ter se perdido até aqui, tendo em vista que tais grupos, que revolucionaram o mercado fonográfico, são pouco valorizados por bandas mais atuais, que, diferente das de gerações passadas (não apenas dos anos 80, mas também dos 90 e até dois mil), ficam presas em nichos e criam elos muito particulares.

As Vespas rompem este lacre separatório, criado misticamente na música brasileira atual (em especial pelo indie rock). A banda, liderada por Thadeu Menghini, se apresenta na mesma noite que Cólera e Inocentes, pilares do movimento punk brasileiro, em um show intitulado como “Amor Inocente em Tempos de Cólera”. A apresentação será no próximo 20 de outubro, no tradicional palco do Kazebre, zona leste de São Paulo.

"Poucas bandas da nossa época transitam. A gente se mistura desde com a galera do Skank, Ira!, Capital Inicial, Fresno até os punks old school, como Inocentes e Cólera", diz Thadeu. “Cólera e Inocentes são representantes do verdadeiro rock, que é militância e profundo amor ao que se faz. Eles são parte da nossa mais alta cultura: que não se mistura aos modismos, aos modelos pré estabelecidos, as curadorias viciadas, ou a ralé publicitária. Eles estão acima dessa necessidade crescente por likes, stories, afetos e consumo. São a nossa conexão direta com o que se pode chamar de revolução. Suas músicas são emblemáticas, atemporais, e portanto, se fazem necessárias até hoje", explica o cantor.

As três bandas irão tocar seus maiores clássicos, como  “Pânico em SP” (Inocentes), “Pela Paz em Todo Mundo” (Cólera) e “Cobra de Vidro” (Vespas). Uma versão especial de "São Paulo", do 365, será executada pelos três grupos, em conjunto.

Uma nova fase para as Vespas

Antes Vespas Mandarinas, agora somente Vespas, o grupo paulistano de rock encabeçado por Thadeu Menghini vive uma nova fase. Com uma formação flutuante, a banda fez uma série de apresentações acústicas por bairros das periferias de São Paulo, além de um show, no mesmo formato, com lotação máxima no Centro Cultural São Paulo. Para a apresentação no Kazebre, o grupo virá com o show plugado. No repertório, músicas dos discos "Animal Nacional" (Deck) e "Daqui Pro Futuro" (Deck), além da inédita "Amor Em Tempos de Cólera". A história da banda é sintetizada em um mini documentário, conduzido pelo músico e jornalista Rodrigo Carneiro.


Acorde, Acorde, Acorde!

Sete anos depois de Redson Pozzi, vocalista e guitarrista do Cólera, nos deixar, a banda lançou material inédito. O trabalho em questão é o álbum "Acorde, Acorde Acorde" (EAEO Records), disco que conta com 13 composições assinadas por Redson, em conjunto com Pierre Pozzi (bateria e voz), Valdemir Pinheiro, (baixo e voz), Wendel Barros (voz) e Fábio Belucci (guitarra), além de Alonso Goés, que marca presença em 6 das 13 canções.

O álbum mantém intacta a identidade criada pela banda em quase 40 anos de carreira e trás detalhes que renovam o som ainda jovem do grupo, como os toques sutis de metais, executados por Felipe Pippeta (trompete), Victor Fao (trombone) e Bio Bonato (saxofone).


Lendas do rock brasileiro

Os Inocentes vêm a campo com a aura de quem é porta-voz do movimento punk no Brasil. Em formação inaugurada em 1995 e composta por Anselmo Monstro (baixo), Clemente Nascimento (voz e guitarra), Nonô (bateria) e Ronaldo Passos (guitarra), a banda passeia em um repertório crítico, enérgico e cultuado, fomentado em quase 40 anos de história e crença no rock. 

SERVIÇO:

Amor Inocente em Tempos de Cólera | Inocentes, Cólera e Vespas no Kazebre
Data: 20 de outubro de 2018 
Horário: a partir das 22h
Local: Kazebre - Avenida Aricanduva, 12011 - Cidade São Mateus - SP
Entrada: R$ 25,00 até R$ 35
Mais informações: http://www.kazebre.com.br/inocentes-colera-vespas/

Textos usados como fontes: "O Que é Punk?" - Antonio Bivar; "Pavões Misteriosos" - André Barcisnski

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