Entrevista: Kastrup vai do colapso à esperança em novo álbum

Foto: Gal Oppido

Dois mil e dezesseis foi um ano diferente para Guilherme Kastrup. O produtor e diretor musical, percussionista e compositor estava inquieto naquele ano. Não era por menos. Assim como todos nós, Kastrup via o que seria apenas o início de uma grande confusão política que vivemos até hoje.

"Em 2016, em meio a turnê da "Mulher do Fim do Mundo", com Elza Soares, eu tinha começado a trabalhar na criação de um novo álbum, a partir de gravações de sessões de improviso livre com alguns parceiros, como Kiko Dinnucci , Alessandra Leão, Marcelo Cabral e Rodrigo Coelho entre outros. Quando se deflagraram primeiros movimentos explícitos do golpe, eu fiquei particularmente angustiado ao perceber uma construção muito parecida com a que tivemos em 64", conta o artista.

Naquele mesmo ano, Guilherme teve acesso ao livro "Ponto de Mutação", de Fritjof Capra, e usou a filosofia exposta na publicação como base para o seu segundo álbum de estúdio, fruto das improvisações, que ganhou mesmo título do livro. Inspirado pela imagem poética-filosófica colocada por Capra, Kastrup fomentou um mapa esquemático, que serviu como esqueleto para o roteiro do disco, que, em nove faixas, serve como uma narrativa. 

O mapa, então, virou a plataforma oficial de "Ponto de Mutação". Para entender melhor, o dito mapa é, agora, uma plataforma transmídia, um dos muito caminhos para audição do registro, rico de informações sobre todos que tocaram no disco. E são, ao todo, 25 músicos. 

A ideia da plataforma veio de uma parceria com o fotógrafo e comunicólogo Vinícius Leonel, que transformou "Ponto de Mutação" no resultado de sua pesquisa: Música no Tecnocultura, a interface como suporte e seus processos de hibridação, que fala, de certa forma, sobre os monopólios dos serviços tradicionais de streaming.

Guilherme Kastrup fala sobre isto, o show de estreia do álbum e muito mais em entrevista ao Eufonia, confira abaixo na íntegra:

EB: Uma das instigações para a criação de seu novo trabalho foi o momento político que vivíamos em 2016. O nosso momento continua ou está ainda mais quente. As suas instigações partem do princípio que o nosso sistema está em profunda transformação, mas o que é esta transformação? É uma transformação contínua?
Kastrup: Em 2016, em meio a turnê da Mulher do Fim do Mundo, com Elza Soares, eu tinha começado a trabalhar na criação desse novo álbum, a partir de gravações de sessões de improviso livre com alguns parceiros, como Kiko Dinnucci , Alessandra Leão, Marcelo Cabral e Rodrigo Coelho entre outros. Quando se deflagraram primeiros movimentos explícitos do golpe, eu fiquei particularmente angustiado ao perceber uma construção muito parecida com a que tivemos em 64, mas também comecei a compreender que esse golpe fazia parte de um movimento geo-político muito além do Brasil. Entendi que era um movimento do sistema financeiro internacional, avançando para criar um novo padrão de opressão e exploração dos povos do mundo inteiro, e que aqui no Brasil tomou um caracter bem sórdido. Foi quando uma amiga, Arícia Mess, me presenteou com o livro "O Ponto de Mutação", do físico e ambientalista Fritjof Capra, que foi muito importante para me abrir uma nova visão de mundo e uma porta de esperança quanto aos rumos da nossa civilização. 

Segundo sua teoria, baseada no pensamento sistêmico ( corrente cintífico-filosófico, que acredita que nós seres humanos, assim como a Terra, a atmosfera, o universo, somos todos sistemas interligados ) , a humanidade estaria em um final de sistema para início de outro. A partir da sua visão holística de mundo, Capra vai analisando vários aspectos da nossa sociedade, demonstrando como em pleno caos, já surgem os elementos da transformação que nos levarão a sair da decadência dessa fase YANG, regida por paradigmas mais masculinos como a competitividade, o individualismo e a guerra, para uma nova luz de uma era Yin, regida por paradigmas mais femininos como a intuição, a solidariedade e o afeto. Usando as palavras do I Ching para resumir: “ Ao término de um período de decadência, sobrevem o ponto de mutação. A luz poderosa que fora banida, ressurge “ Inspirado por essa imagem poética , eu desenhei um "mapa" que parte desse colapso atual para a virada de uma nova era mais iluminada, que passou a guiar a construção das composições e do roteiro do álbum como um todo.

EB: A frase inicial exposta em "Reaction" é "Imagine-se em uma posição externa. Olhando de Marte, o que você vê? Colapso total"? Podemos citar muitos motivos pelo colapso (autoritarismo, concentração de capital, abuso de poder, oligopólios, etc). Para você, a tecnologia (levando em consideração redes sociais, internet, inteligência artificial, games, etc) também contribui para este colapso? Se sim, como contribui?
Kastrup: A frase é do grande pensador e linguista Noam Chomsky, retirada do filme Requiem do Sonho Americano ( recomendo a todos! ), que narra os ciclos viciosos de poder, que mantém a concentração de renda na mão de uma elite de 1%, que por sua vez usa esse poder para manter essa concentração oprimindo e explorando os restante 99%, que somos nós. E completa : “ Se não houver reação, é tudo o que se pode esperar” .

Nunca é a tecnologia que é ruim ou boa e sim o uso dela. Quando Santos Dumond inventou o avião, não o imaginou sendo usado pra guerra, assim como a tecnologia atômica que foi inventada para gerar energia, e originou a bomba. Quando a internet foi criada o intuito era democratizar o conhecimento e não gerar mais segregação , fascismo e ódio. Acredito que temos tecnologia suficiente para alimentar, cuidar da saúde, e satisfazer todas as necessidades básicas de todos os seres humanos e ainda a viver na Terra de forma sustentável, e em boa convivência com o meio ambiente que nos cerca e nos sustenta. A questão é quando vamos mudar os paradigmas e aprender a usar esta tecnologia pra cuidar de nós mesmos, como uma única espécie, e ,da Terra que nos sustenta e não para competir, destruir, oprimir e guerrear entre nós mesmos. Talvez essa força feminina venha nos ajudar nessa sabedoria. Axé.



EB: O seu novo álbum está disponível em uma plataforma transmídia, com informações dos músicos que gravaram em cada faixa, como se fosse um encarte interativo. Primeiro, quero saber o que você pensa sobre as plataformas de streaming tradicionais e se o uso de plataformas transmídias seria suficiente para acabar com a sintetização da informação?
Kastrup: Sim, o CD “desmaterializou” ! Virou 0 e 1 ! desistimos do formato físico pra não criar mais um lixo desnecessário, mas temos um encarte com a arte, textos, letras e um QR Code que leva até a nossa plataforma interativa ( pontodemutacao.guilhermekastrup.com ) onde se pode ouvir, baixar as faixas, ver vídeos, etc e também passear pelas bios e links dos artistas que fazem parte do álbum, como um encarte interativo. 

Esse projeto é uma parceria com o fotógrafo e comunicólogo Vinicius Leonel, que em sua Musica na Tecnocultura, a interface como suporte e seus processos de hibridação, trata exatamente dessa questão do monopólio das redes de streaming, agora pilotadas pelas mesmas multinacionais majors que comandavam o mercado de discos e, que através dos algoritmos, conduzem o ouvinte a uma padronização que atende unicamente aos seus interesses comerciais. Acredito que é de extrema importância, tanto para artistas como para o público e o bem da cultura em geral, criarmos formas plurimas de consumo de música e arte, para que a centralização dos suportes não gere um empobrecimento estético.
EB: Ao todo, você recebeu 25 músicos para a gravação de "Ponto de Mutação". Como foi para organizar este trabalho com tanta gente e como é para você, uma pessoa que transita muito e que conhece muita gente, escolher com quem vai trabalhar?
Kastrup: Sim, foram 25 músicos e mais de 40 profissionais, entre artistas plásticos, gráficos, de vídeo, técnicos e produtores. É um processo colaborativo delicioso e muito enriquecedor. As parcerias vão surgindo de forma natural, de acordo com as afinidades musicais e pessoais. Organizar processos criativos com grupos é das coisas que mais gosto de fazer, dentro do ofício de produção.

EB: Todas estas questões sobre colapso, transformações e inquietações sociais nos levam a uma reflexão sobre o futuro. Edgar, que você com certeza já ouviu, diz que "o futuro é uma criança com medo de nós". E faz todo sentido se analisarmos o nosso presente. Como que é possível construir um futuro com este cenário que vivemos?
Kastrup: O Edgar, grande artista que admiro muito, me foi apresentado pelo Kiko Dinucci, e fez parte do álbum "Deus é Mulher", da Elza Soares, que produzimos este ano, com a faixa "Exu Nas Escolas", que ele é co-autor.

Acredito que todos fazemos parte ativa da construção do futuro. Com atitudes, com ideias, com arte. Somos todos interligados, e nossa ações tem eco, como o dito “Efeito Borboleta”. É muito importante, especialmente numa época de crise como a nossa, mantermos a calma e o pensamento positivo e a vibração alta. Isso se transmite ! Ecoa! É com boa vibração e união, que vamos afastar toda essa onda de medo que anda nos assolando. Isso é propositalmente provocado por aqueles que querem nos manter aprisionados e oprimidos. A política do medo é uma das táticas deles. Não podemos nos deixar levar por isso. O ser humano é mais do que isso! Precisamos cuidar dessa criança, com muito afeto, atenção e coragem. Foco no que é bom, na educação, na arte, no amor e na solidariedade.

EB: Mesmo já tendo uma longa carreira, como que você se sente ao lançar um material novo, com seu nome na capa e tão experimental como "Ponto de Mutação”?
Kastrup: Me sinto nervoso e ansioso como uma criança! (risos) E é uma sensação deliciosa! Acho que buscamos isso no fundo. Nos propomos novos desafios, pra continuar sentindo essa emoção. “Será que vamos conseguir ?” ... E se não houvesse o risco, talvez não fosse tão instigante.

EB: Você atua também na direção musical de shows, incluindo os shows dos mais recentes discos da Elza. Como está projetado show de "Ponto de Mutação" e quem te ajudou a construir esta apresentação?
Kastrup: Sim , fiz direção geral do espetáculo Mulher do fim do Mundo e agora a direção musical do show Deus é Mulher. É um trabalho que adoro fazer! Mas como a Elza tem vários projetos paralelos também, houve essa brecha de agenda para que eu conseguisse lançar o meu "Ponto de Mutação", agora, quatro anos após o "Kastrupismo". 

O show, assim como o disco, é um trabalho colaborativo, com uma equipe bem grande de artistas e profissionais maravilhosos. No palco teremos Alessandra Leão ( voz e percussão ), Rafa Barreto ( guitarra, baixo e MPC ), Ricardo Prado ( teclados e sanfona ), Marcelo Monteiro ( Sax e flautas ) e Henrique Albino ( clarinete, sax e flautas ), e a participação super especial de Ná Ozzetti ( voz ) , além de Anna Turra na parte visual de iluminação e vídeos. Vinicius Leonel na direção criativa, Fernando Narcizo e Marcelo Macoy no som e Netão no palco. Regendo as batutas da organização de tudo isso, Cris Rangel e Lâmia Brito, da Lyra Produções, além da Nany Gottardi ( Locomotiva Cultural ), na assessoria de comunicação. E, falando da ajuda na construção, não posso deixar de citar o Sesc Pompeia que acreditou na ideia e apoiou toda construção desse lançamento.

Serviço

Kastrup - Lançamento de "Ponto de Mutação"
Sesc Pompeia – Rua Clélia, 93.
Dia 17 de outubro de 2018, quarta, às 21h
Teatro
Ingressos: R$9 (credencial plena/trabalhador no comércio e serviços matriculado no Sesc e
dependentes), R$15 (pessoas com +60 anos, estudantes e professores da rede pública de ensino) e
R$30 (inteira).
Classificação indicativa: Não recomendado para menores de 12 anos.

Comentários

Parceiro

Siga-nos no Facebook