Entrevista: Xana Gallo deixa para trás relacionamentos abusivos, valoriza força feminina e lança clipe para "Nada Sei"

Foto: Henrique Azevedo

Gaúcha radicada no Rio de Janeiro, a cantora Xana Gallo segue no processo de divulgação de seu mais recente álbum, "Rota de Fuga", lançado neste ano com distribuição via Tratore. O disco é um livro aberto da vida da cantora, em especial por conter muitas de suas desilusões amorosas e de relações abusivas que viveu.

Depois de divulgar o videoclipe para "Eu Não Sei Dizer Tchau", a música que ganha registro audiovisual agora é "Nada Sei" e você confere em primeira mão aqui no Eufonia. Na letra da canção, Xana mostra que chegou em um ponto que até pensou em desistir do amor.

"'Nada Sei' é uma música que eu compus logo que terminou um relacionamento abusivo. Era um momento em que eu achava que nunca mais iria encontrar alguém. Uma das facetas de um relacionamento abusivo é que o abusador faz você acreditar que ele é a única pessoa capaz de amar você e deixa sempre aquela pergunta no ar: 'Quem vai querer você, assim tão estranha?' Mas a parte boa é que isto não é nenhum pouco verdade. Depois que fiz esta música tive ótimos relacionamentos e cheguei a ficar noiva", conta a cantora.

Além de continuar o trabalho de "Rota de Fuga", Xana Gallo é uma artista que não para de criar e de ter novas ideias. A artista já prepara um novo EP com direção de Diogo Strausz e trabalha em um novo projeto, com enfoque para a valorização da produção cultural feita por mulheres.

Por e-mail, a cantora cedeu entrevista ao Eufonia. Confira e saiba dos projetos e planos da cantora, além de assistir ao videoclipe de "Nada Sei" :

EB: Em "Rota de Fuga" você coloca coisas bem íntimas nas canções. Como que você se sente ao externar estes sentimentos tão próprios, mas, ao mesmo tempo, vividos por muita gente? Por serem justamente assuntos pessoais, você sentiu algum tipo de estranhamento ao ver que aquilo estava refletindo na sua música, e que, coincidentemente, outras pessoas iriam ouvir?
Xana: A maior parte das minhas músicas dizem respeito ao que eu vivi. Não costumo inventar histórias. Não me sinto envergonhada de expor o que aconteceu, pois estou lidando com a verdade e fiz o melhor que podia, com o que eu sabia, na época. O que eu tinha era uma insegurança muito grande, pois imaginava que pudesse não haver uma aceitação das minhas músicas, por serem muito íntimas. O que eu não contava era com tamanha identificação das pessoas com os seguintes assuntos: dificuldade em detectar um relacionamento destrutivo, duvidar de si mesmas, não saber dizer “tchau”, não saber dizer “não”, a necessidade de “fugir” correndo de um relacionamento destrutivo/abusivo. E é justamente sobre tudo isto que o disco trata, por isso o nome “Rota de fuga” (fuga de relações destrutivas).

Voltando às composições, eu raramente tinha para quem mostrar minhas músicas. Quando cheguei ao Rio, não tinha ideia se minhas canções iriam fazer sentido para alguém. Só para vocês terem uma ideia da minha insegurança com relação às minhas músicas, na minha primeira ida ao cinema, eu perguntei às moças do caixa se elas poderiam me passar seus contatos, porque eu queria saber a opinião delas sobre minhas canções. Eu realmente não tinha para quem mostrar. Eu vinha de um isolamento social muito grande. Quando eu vi, eu estava cantarolando minhas músicas até para motoristas de táxi, em busca de aprovação. Eu pensava que as faixas ofenderiam os homens de alguma forma. Mas não é verdade. Muitos homens escutam minhas músicas. Cheguei ao Rio ainda em estado de estresse pós-traumático e eu ainda não conseguia confiar em mim mesma. Eu vinha de um isolamento social muito grande. Isolamento, este, que estou quebrando dia após dia. Retomei contato com antigos amigos, o que foi providencial para melhorar meu ânimo e minha confiança.

Foto: Henrique Azevedo

Aos poucos, fui entendendo que o que para mim era o meu particular, poderia ser mais universal do que eu imaginava. Comecei a colocar trechos das minhas músicas na internet e o meu público começou a crescer. Meninas de várias partes do Brasil começaram a me mandar mensagens. Para os casos mais sérios, dou meu whatsapp, para conversar melhor. É importante a pessoa saber que não está sozinha, que tem com quem contar.

EB: É certo que o "Rota de Fuga" traz uma série de relacionamentos abusivos mas você descreve que "Eu Não Sei Dizer Tchau" remete ao último deles. Isto me passa uma imagem que você se tornou uma mulher muito segura e autoconfiante. Como que foi para você tomar as rédeas de sua vida? O que foi preciso?
Xana: Com certeza hoje sou uma mulher muito mais segura e autoconfiante. Por isso falo com tranquilidade e, em meus shows, chego a brincar ao contar as histórias antes das músicas. Essas composições não me doem mais. Muito pelo contrário. O fato de eu tê-las composto me ajudou a colocar para fora todo um sentimento que eu não sabia como expressar.

Para eu chegar ao estado de autoconfiança que tenho hoje, foi preciso pedir ajuda. Iniciei uma terapia com uma profissional aqui do Rio e também coaching, para reprogramar várias crenças negativas que eu tinha sobre mim mesma e que não eram nem minhas. Precisei escrever bilhetes pela casa dizendo “Eu confio em mim”, “Eu estou certa”, pois a voz de pessoas que me colocaram para baixo ainda eram mais altas do que minha voz interna. Aos poucos essa balança foi mudando. Mas é preciso deixar claro que é muito importante pedir ajuda. Principalmente durante o estresse pós-traumático, pois quem passa por um relacionamento abusivo fica com uma imagem distorcida de si mesma. Ainda hoje faço um esforço muito grande para romper com o isolamento social.



EB: Eu falei de você passar uma imagem de autoconfiança e segurança e eu sei que você está trabalhando em um novo EP, com um dedo do Kassin. Primeiro, quero saber a que pé anda este EP e como está o seu trabalho como compositora nele? Virá algo tão pessoal quanto "Rota de Fuga"?
Xana:  É importante ressaltar que Kassin não produziu este EP, mas, sim o Diogo Strauzs, que me foi indicado por ele. Kassin toca baixo neste EP e foi no Estúdio Marini que fizemos as gravações.

Sim, sempre algo pessoal. Este EP revela uma mulher mais forte e que é mais direta ao falar sobre assuntos como divisão do trabalho doméstico (na música “Lá Em Casa”), sobre Gaslighting (que é uma forma de abuso psicológico no qual informações são distorcidas com a intenção de fazer a vítima duvidar de sua própria memória, percepção e sanidade e é o nome de uma faixa) e também sobre assuntos político-sociais (a música Roda Rodou retrata a maneira como estamos sendo convidados a nos calar).

EB: Em "Nada Sei" você canta que não sabe se vai mais amar. Chegou um momento que você quis mesmo desistir do amor? Gostaria de saber também como está sua comunicação com o amor agora, há quantas andam este coração?
Xana:  "Nada Sei" eu compus logo que terminou um relacionamento abusivo. Era um momento em que eu achava que nunca mais iria encontrar alguém. Uma das facetas de um relacionamento abusivo é que o abusador faz você acreditar que ele é a única pessoa capaz de amar você e deixa sempre aquela pergunta no ar: “Quem vai querer você, assim tão estranha?”

Mas a parte boa é que isto não é nenhum pouco verdade. Depois que fiz esta música tive ótimos relacionamentos e cheguei a ficar noiva. Hoje estou extremamente seletiva e preferindo ficar comigo mesma, com minha família e com minhas amigas na maior parte do tempo.



EB: Na mesma canção você fala que "ficou mais um pouco num tropeço" e que "rezou por um novo começo". Estas duas passagens, em especial, dialogam com o que é tratado em "Eu Não Sei Dizer Tchau" (a sensação de não querer o fim daquela relação) ou em "Nada Sei" há um significado diferente?
Xana: A maior diferença é que uma música foi feita para um relacionamento e outra música foi composta quase cinco anos depois, para um outro. O fato de elas se parecerem é que, depois de um tempo, esses relacionamentos também começaram a se parecer. O término de ambos foi praticamente igual.

Existem algumas fases de um relacionamento destrutivo. Não estou falando como especialista, apenas como alguém que viveu alguns. Falo apenas da minha experiência. A fase inicial parece um conto de fadas, a pessoa já mapeou você e diz tudo o que você quer ouvir. Não que ela sinta tudo o que diz, mas sabe exatamente o que fará você abaixar a guarda. Pela minha experiência, essa fase de conquista, também conhecida pelos americanos como “Love-bombing” (bombardeio de amor), não dura mais do que nove meses.

Depois, os relacionamentos abusivos ficam muito parecidos: desvalorização, manipulação, depreciação, desdém e ridicularização dos seus sonhos e objetivo, crueldade ao apontar seus defeitos, acusações a todos os que gostam de você, gerando isolamento, mesclando crueldade com declarações e gestos exagerados de amor, de modo que a deixe mais confusa e triste. Neste primeiro relacionamento abusivo, cheguei a receber, num mesmo dia, seis arranjos de flores caríssimos entregues aos poucos no meu local de trabalho. E, o segundo relacionamento, em um mês já havia me enviado flores duas ou três vezes.

Em “Eu Não Sei Dizer Tchau” eu estava tentando terminar o relacionamento, mas não conseguia. Depois de ter composto esta música ainda fiquei mais um bom tempo com a pessoa. Em “Nada sei” eu já tinha terminado o relacionamento e estava acreditando que nunca mais me relacionaria com ninguém. O que não foi verdade.

Foto: Henrique Azevedo

EB: Eu estava assistindo os vídeos de suas músicas e descobri pelos créditos que você é responsável pela edição, o que achei bem interessante. Além da edição, você trabalha no projeto imersa em elementos do vídeo? Em "Nada Sei", por exemplo, há uma interpretação que reflete no seu olhar, nos gestos com as mãos, na sua expressão facial. Isto é roteirizado ou é totalmente orgânico (gravou e saiu assim)?
Xana:  Eu prefiro editar meus próprios vídeos, porque sei o sentimento que desejo passar em cada música e é mais fácil eu mesma “meter a mão na massa”, pois eu sei quando estava realmente emocionada. E, nas edições, procuro mostrar as partes em que a emoção foi real.

Não é nada roteirizado, mas me esforço para me conectar com a emoção da música. Às vezes preciso me esforçar um pouco mais, pois já não sinto mais esta dor. Aliás, o disco “Rota de Fuga” retrata momentos que já foram superados, todos eles. Gravei músicas que foram compostas há cinco, seis anos atrás.

EB: Outra coisa que você está envolvida é o projeto "CompositorA". Eu queria saber mais sobre o que é isto. A ideia é sua? Em qual fase isto está, pra onde isto vai e, sendo algo participativo, qualquer mulher que estiver disposta pode participar?
Xana: Este projeto iniciou de forma espontânea, quando uma senhora comentou um vídeo meu com um poema dela. Aquilo me despertou uma vontade de saber o que mais as minhas seguidoras escreviam. Fiz uma postagem pedindo que me enviassem seus escritos, ideias para composição, histórias e nunca mais parei de receber.

O projeto está em fase inicial, pois ainda estou compondo as músicas (sempre em parceria com elas. Eu envio minhas ideias para elas e vamos trocando figurinhas até a música ficar pronta e ser colocada na internet para o público dar nome), mas pretendo fazer algo maior com este projeto, como um show ou disco com estas mulheres.

Já compus uma música com a senhora Alice Andrade, do Ceará, Rejane Porto, do Rio Grande do Sul, Yara Raquel Monte Coelho, do Maranhão e Gilda Baccarat, de São Paulo. Tenho mais músicas a caminho, com mulheres de outros estados. O mais importante disto tudo é que as mulheres sintam que o seu lugar é também na composição. Eu sei que existem muitas compositoras hoje em dia, mas ainda existe uma diferença muito grande entre o número de mulheres compositoras e de homens.

EB: Para finalizar, gostaria de saber o que é uma mulher forte pra você e o que você diria para mulheres que, assim como você passou, passam por relacionamentos abusivos e que encontram dificuldades de sair deles?
Xana:  Eu acredito que todas as mulheres são fortes. Todas, sem exceção. Mesmo as que não sabem que são. Uma das coisas que me ajudou foi parar de escutar as pessoas que me faziam sentir algum tipo de tristeza. Mesmo amando essas pessoas, parei de perguntar a opinião delas e comecei a me escutar mais. Mesmo ainda sem acreditar em mim, eu dizia para mim mesma que o que eu sentia estava certo e que eu era uma pessoa com quem eu podia contar. Aos poucos, se tornou realidade.


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