Entrevista: no tom de Fernanda Takai

Foto: Weber Padua

No brilho de um dia ensolarado ou nos tons cinzas de uma tarde nublada. Não importa como está o tempo, o frescor e a sensibilidade que as canções de Tom Jobim carregam ultrapassam não só a barreira das décadas, mas adentra, de verdade, o ser humano. E continua a emocionar, assim como emocionava no final dos anos 50.

E quem mais, com uma sensibilidade tão apurada (e que carregue de tal frescor em sua própria aura) do que Fernanda Takai? A cantora, líder do Pato Fu, encarou o desafio de fazer releituras de Tom Jobim. Mas, claro, ela não pegou esta tarefa sozinha. Fernanda contou com a produção de Marcos Valle e Roberto Menescal, dois dos criadores da Bossa Nova, para a confecção do álbum "O Tom de Takai". As faixas escolhidas para o disco? As que não figuram o catálogo dos grandes sucessos, ou, se preferir, as mais esquecidas de Tom Jobim.

"Este disco reproduz a época mágica em que toda uma geração pareceu despertar para a beleza. Aqui estão algumas das primeiras canções de Tom que aquela turma teve a felicidade de conhecer. Canções que, por Tom ter produzido tantas obras-primas pelo resto da vida, foram ficando para trás, quase esquecidas --- “Olha pro céu”, 'Aula de matemática', 'Outra vez', 'Ai quem me dera', 'Brigas nunca mais' e tantas outras", conta o jornalista Ruy Castro, autor de livros como "Chega de Saudade" e "Noites Tropicais".

"O Tom da Takai, com Fernanda, e a produção e arranjos de Roberto Menescal e Marcos Valle, veio em socorro dessas maravilhas, garimpadas pelos três. Faixa após faixa, ela nos traz de volta um Tom que era urgente recuperar --- o Tom jovem, de cerca de 30 anos e ainda inconsciente de sua vocação para a eternidade", completa.

Convidamos Fernanda Takai, que se apresenta em São Paulo entre os dias 24 e 26 de agosto, a nos contar um pouco mais sobre o álbum. Por e-mail, a cantora respondeu as perguntas. Confira:

EB: Fernanda, você lembra como foi o seu primeiro contato com as canções de Tom Jobim e quando você passou a prestar mais atenção na obra dele? Muitas pessoas criam elos familiares com os álbuns do Tom, às vezes passa de pai para filho, de avô para neto e assim vai. Com você foi assim também?
Fernanda: Foi através das fitas cassete do meu pai. Ouvíamos muito em casa e também nas longas viagens de carro que fazíamos. Via matérias na televisão do Tom com outros artistas, muitas cantoras... fui entendendo como ele está presente em momentos muito significativos de nossa música.

EB: Mesmo o Tom Jobim sendo parte da história da música brasileira, por que é importante reacender estas canções, em especial, canções não tão famosas, que não ganharam tantas regravações?
Fernanda: Como eu tenho uma carreira autoral há 25 anos e outra mais de intérprete há uma década, sei como é importante jogar outra luz sobre canções que não tiveram tanta atenção do público. Há verdadeiras joias nos discos que, pela forma como a indústria cultural funciona, não são escutadas com tanta frequência... sinto que é um dos papéis mais importantes de uma voz criar uma interface entre uma obra e os ouvintes, sejam mais antigos ou novos.

EB: Esta experiência, de fazer releituras do Tom Jobim, de ter a presença do Menescal e do Marcos Valle produzindo as canções, enriquece e inspira você para trabalhos autorais? Se sim, o que você leva deste trabalho para a sua carreira autoral e como que você se sente, artisticamente, depois da gravação de "O Tom de Takai"?
Fernanda: Qualquer trabalho novo que eu faça, na banda ou na carreira solo, oxigenam muito o meu pensamento musical. Trabalhar com os dois tem um valor histórico, tem me dado muita alegria em perceber como eles são geniais, bem humorados, generosos. Isso é inspirador pra toda a vida!

Foto: Quinho Mibach

EB: Em meados dos anos 60 os Beatles e a nossa bossa nova eram as "febres mundiais". Diversos artistas do jazz americano inclusive faziam releituras de canções brasileiras, sem contar o Frank Sinatra, que contribuiu imensamente para esta "exportação". Claro que depois vieram muitos outros movimentos artísticos importantes e que causaram impacto. Mas, como você vê a música brasileira feita hoje, neste cenário global de tanta liquidez? Ainda fazemos músicas que quebram fronteiras e que, possivelmente, ficam para posteridade?
Fernanda: Ficar para a posteridade é algo que só o tempo vai comprovar mesmo. Alguns fazem sucesso, vendem muito, tem cachês incríveis. Essas fases são passageiras. A gente não consegue viver sempre na melhor fase, não é? Mas acredito muito na qualidade da canção. Seja na parte instrumental, na construção harmônica, na melodia e nas histórias que as letras contam... ser atemporal: esse lugar é para poucos.

EB: Embora muito elogiado, "Onde Brilhem Os Seus Olhos", seu primeiro álbum solo e que também homenageia a bossa nova, em especial Nara Leão, recebeu algumas opiniões comparando a empostação de sua voz com a de Nara, o que era até inevitável. Thales de Menezes, em crítica na Folha de São Paulo, definiu o "Tom de Takai" como um álbum muito bonito, mas "certinho demais". Eu gostaria de saber se você acompanha estas críticas e como que você reflete sobre elas?
Fernanda: Acompanho sim e em geral as críticas foram muito boas! Ao longo dos anos a gente aprende a ler as críticas com mais tranquilidade, com mais segurança. Eu realmente tenho fama de ser uma pessoa certinha e acho que se esse foi um demérito do álbum nas palavras dele, realmente não é um incômodo. Acho que o disco tem exatamente o DNA que propomos, pelos arranjos criados, pelos músicos que tocaram. Sinto-me extremamente confortável e muito feliz com ele.

"Este é um momento de circulação, apresentações e não de criação. Quero apenas encontrar as pessoas que gostam de mim pelo país afora."


EB: Como que é o show de "O Tom de Takai? Quem te acompanha, como é o cenário, o que você pode nos adiantar da experiência ao vivo deste disco?
Fernanda: No lançamento paulista no SESC Santana (24 a 26 de agosto), teremos Marcos Valle (piano e voz), Roberto Menescal (guitarra semi-acústica e voz), Renato Massa (bateria), Adriano Souza (teclados) e Jefferson Lescowich (baixo) e eu na voz principal. Somos muito fiéis ao disco - que tocamos inteiro - e incluímos algumas surpresas. O cenário é do Adriano Vale que também faz a luz do show.

EB: Além dos shows do "Tom de Takai", o que mais você quer fazer neste segundo semestre do ano, há outros projetos solo ou com o Pato Fu em andamento?
Fernanda: Nem dá tempo de querer fazer mais nada. Há tudo junto! Música de Brinquedo 2, shows solo com banda, DVD Na Medida do Impossível ao vivo no Inhotim, participação em Feiras Literárias, shows de projetos especiais violão e piano, com outros artistas... são vários moods musicais. Mas este é um momento de circulação, apresentações e não de criação. Quero apenas encontrar as pessoas que gostam de mim pelo país afora.

Serviço

Fernanda Takai no Sesc Santana
Avenida Luiz Dumont Villares, 579, Santana, São Paulo
De 24 a 26 de agosto
De R$12,00 a R$40,00

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