A reinvenção de Ronei Jorge

Foto: João Milet Meirelles

Quem vê o perfil de Ronei Jorge nas plataformas de streaming ou nas redes sociais pode imaginar que o cantor, compositor e guitarrista baiano esteja começando agora na música. Mas não é bem assim. Ronei está na área há mais de 20 anos, com trabalhos consistentes e consolidados. O de maior destaque foi em conjunto com Os Ladrões de Bicicleta, banda de uma mistura ímpar da MPB com o rock, em que o baiano liderou até 2010.

Antes mesmo do trabalho com Os Ladrões, Ronei Jorge passeou pela onda cult da banda Saci-Tric, durante seis anos. Agora, o cantor está em mais uma de suas novas fases. "Entrevista" é o nome do seu primeiro álbum solo, com 10 faixas, calcadas na MPB, no jazz, no samba e no pop rock.

Embora assine solo, o registro conta com uma banda afiada, batizada de Dziga Tupi. O grupo é formado por: Carla Suzart (baixo e voz), Aline Falcão (piano, synth e voz), Ian Cardoso (guitarra e voz) e Maurício Pedrão (bateria). A produção do disco é de Pedro Sá, o mesmo produtor de "Frascos Comprimidos Compressa", o último álbum dos Ladrões de Bicicleta.

Como um todo, o novo disco de Ronei Jorge é um grande caldeirão cultural. As faixas transitam entre a leveza e alguns picos de explosão, até mesmo no meio das canções. É como se fosse uma constante progressão, conectadas por poesias instigantes e bem colocadas. Assim é, por exemplo, "Advinha". A faixa abre o disco de modo calmo e cresce, até atingir um ritmo mais intenso.

Foto: João Milet Meirelles

Outro elemento interessante é a constante divisão de versos com Carla Suzart e Aline Falcão, o que resulta em um contraste com a voz de Ronei Jorge. As vozes das cantoras ecoam livres, não como backing vocals, e garantem passagens belíssimas, como em "Noites de Goiabada", e contestadoras, como em "O Inferno É Você".

“Este é um trabalho que se desdobra a partir do que eu muito vinha revirando e ouvindo. As vozes femininas presentes em trabalhos de Tom Jobim, Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção e Caetano Veloso acabaram por ser inspiração para um desejo novo. Vem dessas vozes o ponto de partida estético, assim como a influência mineira e a brasilidade passível de ser colocada no rock”, explica Ronei.

Em "Entrevista" ainda é possível ouvir melancolia em "Parque De Diversões" e "Que Amor É Esse"; MPB com guitarras afiadas em "Quem Dera Um Dia Fosse"; pitadas de samba em "Encabulando Os Convidados" e uma mistura característica do jazz e MPB em "Ela".

O disco ainda conta com participações de Moreno Veloso (voz e percussão), Joana Queiroz (clarinete e clarone) e Luana Carvalho (caxixi). A arte de capa e encarte são de Edson Rosa, que também assina a letra de “Parque de diversões”, única coautoria do álbum.

O registro foi gravado no Estúdio Casa das Máquinas, em Salvador, com projeto contemplado pelo Edital Setorial de Música, tendo apoio financeiro do Governo da Bahia, através do Fundo de Cultura, Secretaria da Fazenda, Fundação Cultural do Estado da Bahia e Secretaria de Cultura. O artista utilizou, também, recursos coletados por financiamento coletivo para concluir a produção do disco, disponível em todas as plataformas digitais com distribuição via Tratore.

Com "Entrevista", Ronei Jorge sai novamente do casulo e alcança mais uma de suas reinvenções. Afinal, sua arte nunca foi algo estagnado, mas sim uma constante transformação. Confira o disco:

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