Apenas por mulheres: grupo de artistas luta para reabrir casa que valoriza presença feminina

Foto: Marcela Valverde

Um espaço underground feito por mulheres, que reúne artistas, produtoras e projetos contestadores. Não é fácil encontrar um lugar como este, mas assim foi a MOTIM, casa independente no Rio de Janeiro que abrigou  oficinas, cursos livres, rodas de conversa, trabalhos manuais, festivais de música, ensaios de bandas, gravações, exposições e todo tipo intervenção artística até abril deste ano, quando o espaço teve que fechar as portas. Mas não definitivamente.

Letícia Lopes (Trash No Star), Larissa Conforto (Ventre), Bel Baroni (BEL, Mohandas) e outras mulheres imersas no cenário musical se juntaram para realizar a tarefa de reabrir a MOTIM. Para isto, está sendo realizado um financiamento coletivo, afim de levantar renda para custear os contratos com a imobiliária, os requisitos de segurança e itens básicos para manter o ambiente, que será em um novo endereço, também no centro do Rio, próximo ao metrô Uruguaiana.

“A MOTIM nasceu da necessidade de tocar nossos projetos de forma segura e autônoma, decidimos que iríamos arregaçar as mangas e botar a cara no Sol. Inicialmente éramos eu e Amanda Flores (vocalista da banda Ostra Brains), mas sempre contamos com uma grande rede de afeto de manas que chegavam para ajudar de todas as formas”, conta Letícia Lopes, vocalista e guitarrista da banda Trash No Star.

Foto: Hanna Halm

O objetivo das artistas, por enquanto, é arrecadar cerca de 14 mil reais. No momento, 21% da meta foi atingida, segundo a plataforma Vakinha. A hipótese de receber apoio de uma grande empresa é válida e considerada pelas gestoras do projeto. "Nossa maior dificuldade atual é justamente a falta de incentivo. A concorrência para conseguir um edital é imensa. Estamos vivendo um momento em que as empresas têm se preocupado muito com questões sociais e a imagem delas em relação a isso, então, não seria um problema apoiar nosso projeto, levando em consideração tudo o que acreditamos e defendemos", conta Letícia.

Sem fronteiras

O grande diferencial da MOTIM é uma curadoria e organização feita apenas por mulheres e, apesar do espaço estar no Rio de Janeiro, a ideia é ampliar os horizontes. "Somos artistas. Passamos a maior parte de nossas vidas convivendo em ambientes dominados por homens cis, héteros, numa estrutura patriarcal que coloca a mulher em segundo plano. E ocupar esses espaços sempre demandou muita energia, para que nossas vozes fossem ouvidas, nossas pautas fossem levadas a sério" explica Letícia. 

"A ideia é construir um local seguro que acolhe e fortalece para que as ideias floresçam e ganhem o mundo. Acolhemos muitos projetos de outros Estados e de fora do país, mas queremos expandir os nossos também. Todas as administradoras da Motim estão envolvidas de forma direta ou indireta em atividades espalhadas por todos os cantos do mundo", completa.

“Quando se tem uma curadoria feita por mulheres com diferentes vivências e espaços de fala, automaticamente já estamos transformando a maneira de fazer cultura na cidade. A MOTIM representa mais do que resistência num cenário de escassez, representa construção de um caminho paralelo, mesmo. A ideia é poder desenvolver um novo fazer artístico, em que seja possível ressignificar as velhas ferramentas, as mesmas que excluem e discriminam desde sempre, respeitando a pluralidade e a diversidade de fala. Pra mim, essa é uma sementinha que foi plantada em 2016 e agora começa a brotar. Um novo começo”, reflete Larissa Conforto, artista carioca e colaboradora da casa.

Foto: Marcela Valverde

A campanha de financiamento coletivo continua aberta até sete de setembro e o valor mínimo de colaboração é de R$25,00. Os apoiadores terão direito a um mês de entrada VIP nos eventos da casa, além de um passaporte válido por dois meses para participação em oficinas ministradas pelas administradoras. O nome dos apoiadores estará impresso em um pôster especial de reabertura da MOTIM. 

Confiantes, as mulheres que administram a reabertura do MOTIM seguem em frente neste projeto que visa o reconhecimento feminino em um ambiente ainda muito machista. "Conseguimos avançar. Mas essa mudança ainda não contempla todas as meninas. Ainda existe muita 'brotheragem' na cena musical. O problema é estrutural. Depende da vontade individual de mudar, desconstruir padrões de comportamento e reconhecimento de privilégios. E esse processo é lento ao passo que as demandas são urgentes", conta Letícia. 

"Insistir neste projeto é a garantia de que nossas vozes jamais serão silenciadas. Toda vez que uma mulher é fortalecida, ela transforma a comunidade em que vive, transforma sua própria vida, enxerga mais possibilidades e passa a acreditar no seu potencial. Desde que a Motim abriu as portas, vivenciamos muitas transformações que nos mantêm firmes pra seguir na luta", finaliza. 

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