Resenha: Um convite ao íntimo com a Carne Doce

Foto: Rodrigo Gianesi

"Tônus" (Natura Musical), o novo álbum da Carne Doce, é uma explosão interna. Diferente dos dois álbuns em catálogo na discografia da banda, "Princesa" e "Carne Doce", o mais recente registro do grupo goiano é uma comunicação interna com o ser. Com uma voz mais contida, Salma Jô canta como se quem cantasse em frente ao espelho, sem gritos para "a vizinhança ouvir". "Tônus" é, sobretudo, um convite ao íntimo, com poesias muito bem estruturadas, expostas em primeira pessoa (o que dá um caráter maior de particularidade e introspecção ao registro).

Ainda que sem a presença de canções catárticas, como "Falo" e "Artemísia", o grupo consegue soar visceral. Em especial, pelo começo. "Comida Amarga", a faixa que inicia os trabalhos, apresenta um início melancólico e épico, com Salma colocando as palavras de forma delicada, embora a canção até tenha um refrão entoado com mais força. A música é responsável por anunciar ao ouvinte sobre a estética obscura que está por vir e que será predominante por grande parte do registro, calcada em elementos sonoros minimizados, por vezes psicodélicos, que transitam calmamente e deliciam a obra.

Em "Irmãs", faixa que expõe a valorização sobre uma influência, esta distribuição de elementos é mais perceptível, assim como em "Besta", canção que demonstra uma certa desilusão com o cenário musical independente, ainda que "a poesia, infelizmente, acontece", segundo sinaliza a letra.

Os singles divulgados anteriormente ao álbum, "Nova Nova" e "Amor Distrai (Durin)", mostram bem esta reinvenção vivida pela Carne Doce em estúdio. Em destaque para a primeira, canção melancólica, cheia de angústias e calcada em batidas eletrônicas.


A música que dá título ao disco, com base no indie pop, é a que ecoa mais energia e uma disposição maior de cores em sua sonoridade do que as outras do disco. Sintetizando: a música é um pouco fora daquela obscuridade definida anteriormente. Já "Brincadeira", apresenta traços leves de R&B, uma leveza que encaixou-se muito bem não só ao disco, mas ao catálogo geral de canções da Carne Doce.

"Tônus" foi produzido por João Victor Santana e lançado com apoio da Natura Musical e distribuição da Tratore. Salma Jô assina nove das 10 faixas.São letras em parceria com Macloys Aquino (guitarrista), João Victor Santana (guitarra e sintetizadores), com a banda toda ou com Dinho Almeida, integrante da também banda goiana Boogarins. O disco, como um todo, não é de uma degustação tão fácil. É preciso se atentar aos detalhes, ter um contato maior com as letras. Não acontece de imediato. "Tônus" é uma camada profunda, colocada com muita delicadeza e cuidado, de angústias, dúvidas, medos e reconhecimentos.

Ao vivo 

Foto: Filipa Andreia/Reprodução Instagram

A estreia do show de "Tônus", no Centro Cultural São Paulo, neste sábado, 21, mostrou como as canções tão introspectivas do novo álbum soariam em um contato tão próximo com o público. E foi melhor do que parece. Todos os integrantes da banda já estavam no palco da Sala Adoniran Barbosa quando Salma Jô entrou, toda de preto e meia-arrastão branca. Símbolo estético do novo registro do grupo goiano. Apesar do álbum ter caído nas ruas há tão pouco tempo, parte do público cantava faixas como "Comida Amarga", "Brincadeira" e os singles "Amor Distrai (Durin)" e "Nova Nova".

Apenas duas canções de "Princesa" foram introduzidas ao repertório: "Artemísia" e "Falo", esta última com direito a uma invasão do público feminino ao palco. "Passivo", a única do disco homônimo de estreia, foi responsável por finalizar o espetáculo de forma catártica.

A apresentação, que mostrou uma sintonia imensa entre os músicos, consagrou, mais uma vez, Salma Jô como uma grande frontwoman do rock nacional. Para quem acompanha os shows do grupo há algum tempo, é possível notar facilmente a evolução da cantora, tanto em sua performance como cantora como a de presença de palco. Com muito carisma e atitude, Salma dança, canta suave, se joga e grita quando tem que gritar. Sem mesmo que demonstre vocalmente, chama o público para cantar com ela. Em sua expressão facial, é possível notar que está adorando tudo aquilo e dá o seu melhor para um público imensamente apaixonado."Salma é muito popstar", ouve-se de um fã na saída do CCSP. E realmente é, como poucos dessa nova safra.

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