"Colocar sentimentos em palavras e melodias é tira-los aos poucos do peito, é libertador", conta Taís Alvarenga

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Desde cedo ela está habituada com a música. É parte da vida, existência. É parte de Taís Alvarenga como um todo. Quando criança, Taís cantava na igreja. Já aos 18 anos, fazia parte da trupe teatral de Oswaldo Montenegro, onde integrou o elenco de três peças. Ganhou, em 2007, uma bolsa para estudar na Berklee College of Music, em Boston, Estados Unidos. Estudou, tocou com artistas do mundo inteiro e voltou para o Brasil.

Enfim, o primeiro álbum da cantora foi ao ar, há pouco mais de duas semanas. "Coração Só" narra um mar inquieto de emoções e sentimentos. Vivências de Taís. São 10 canções, que contaram com a produção de Pupilo (Nação Zumbi). Nove, das dez músicas, são autorais. A única exceção é "Duna", que conta com assinatura de Lula Queiroga e Lucky Luciano.

"Esta faixa é uma das minhas paixões deste projeto. Foi a única de outro compositor que entrou no disco. Por ter uma unidade muito forte, e as músicas terem sido selecionadas assim, propositalmente, todas as outras canções ficavam fora de contexto. Era gritante. Mas 'Duna' veio com leveza, conversando com toda a narrativa deste projeto", conta Taís.

Em entrevista ao Eufonia, Taís Alvarenga falou sobre o processo de composição do álbum, sua evolução como profissional e os projetos para a divulgação do disco. Confira:

EB: Você fez sua primeira composição aos 9 anos, certo? Como que era neste tempo que você frequentava tanto a igreja? Você lembra como foi se apresentar em público pela primeira vez? Aliás, como que você se descobriu compositora?
Taís: Certo! Era um tempo de cuidado. Eu já tinha a consciência de que ir para a igreja todos os sábados significava aprender a ser um ser humano do bem. Era um lugar diferente do resto do mundo, em todos os aspectos. Ali, meus instintos primitivos eram questionados. Ir além dos impulsos de tudo o que recebemos de ruim. Atenção e amor.

Minha mãe questionava tudo feito ali, mas mesmo assim me levava. E eu também aprendi a questionar tudo (risos). Não lembro a primeira vez que cantei porque foi num coral, eu era muito pequena. Beijo tia Ivete! (risos). Mas lembro a primeira vez que cantei sozinha. Devia ter uns 6/7. Desci correndo do púlpito da igreja e minha mãe, ao invés de elogiar como todas as outras fariam, disse: "você não deve correr, cantar é algo importante. Você precisa ter respeito e descer com calma”. Vê-se o início do meu perfeccionismo (risos).

Compor sempre foi uma forma de expressão natural pra mim. Acho que quando comecei nem cheguei a pensar sobre isso, simplesmente escrevi, cantei e compus. Mas compor é algo tão complexo, que acho que ainda estou me descobrindo como compositora. É difícil expressar coisas tão maiores do que nós mesmos. É uma responsabilidade. Receber as inspirações que estão a nossa volta.

EB: Depois, aos 18 anos, você entrou no teatro. O que você leva de aprendizado desta experiência, com o Oswaldo Montenegro, né?
Taís: Tanta coisa. Oswaldo, como diretor e preparador, mudou a minha percepção de palco, de arte, de seriedade, de narrativa, de pontualidade, de estética, de tudo. Oswaldo tem um respeito pela arte e uma entrega rara. Por causa dele eu tive vontade de ser maior e de estudar. Com ele não tinham 10 minutos de atraso, muito menos não saber o que está fazendo, ou não entender sobre cada palavra que está sendo dita. Oswaldo é uma espécie de mestre. Ele vê suas forças e potencializa. Te ensina a não subestimar o público. Ninguém sobe no palco dele para pouca coisa. Foi praticamente a minha primeira faculdade. Eu entendi com ele que arte era coisa muito séria.

EB:  E, depois, como foi a vida nos EUA? Teve muitas dificuldades lá?
Taís: É sempre difícil estar em outro país, principalmente como mulher brasileira. Ainda estamos muito sexualizadas lá fora. Mas eu não guardo dessa experiência nenhuma dificuldade relevante. Qualquer dificuldade era pequena comparada à experiência de estar na Berklee. Foi um momento muito brilhante da vida. Lá a música virou algo muito grande em mim.

EB: Podemos dizer que em todo este processo o "Coração Só" já estava, de certa maneira, acontecendo?
Taís: Na verdade, não. Eu estava pensando diferente, compondo diferente, vivendo outra cultura. E eu queria cantar para o meu país. Sou patriota, fazia questão de estar aqui. Mas quando voltei, levou um tempo para entender a cultura novamente. Minha cabeça tinha mudado muito. Reabsorvi a cultura com novos olhos e referências. Depois disso tudo, consegui começar uma célula mais autêntica de composições, mais minha, menos pensada. Começaram a vir canções genuínas, muitas delas estão neste disco.

EB: Muitas das faixas contam suas vivências. Como que é isto de se colocar pra fora, de deixar, em especial os sofrimentos, nas canções? Te causa alguma sensação?
Taís: É libertador. Por serem sentimentos complexos, colocá-los em palavras e melodias é tira-los aos poucos do peito. E acho que é um encontro com um propósito maior do que podemos ver e sentir. É como materializar a vida. A sua própria vida.

Foto: Divulgação

EB:  A única música que não é de sua autoria é "Duna", que é do Lula Queiroga e do Lucky Luciano. Como que você recebeu este presente e qual a maior diferença de ser intérprete e a compositora de uma canção?
Taís: Como você disse, presente. Que presente. Lula é pra mim um dos maiores compositores do Brasil. Eu não tenho como expressar o que é ter uma música dele e do Lucky no meu disco. “A gente era eterno e não temia nada. Nem as ondas gigantes do mar revolto”.

Essa faixa é uma das minhas paixões deste projeto. Foi a única faixa de outro compositor que entrou no disco. Por ter uma unidade muito forte, e as faixas terem sido selecionadas assim propositalmente, todas as outras músicas ficavam fora de contexto. Era gritante. Mas “Duna” veio com leveza, conversando com toda a narrativa deste projeto.

EB: O quanto foi importante a presença de Pupilo na produção do álbum?
Taís: Foi, talvez, a coisa mais importante deste projeto. Pupillo deu o caminho do projeto, e eu sinto que com ele as canções ganharam força, por ser um músico e um produtor forte. Ao mesmo tempo, ele foi um dos primeiros produtores que trabalhei que respeitou tudo o que já havia em mim, nas músicas, no meu piano. Isso é tão difícil no Brasil. As pessoas produzem pensando em dar certo, Pupillo não, Pupillo produz pensando em música, em arte. É uma honra ter um profissional assim no Brasil. Foto retirada do Facebook.

EB: Na faixa que termina o disco, "Outro Sol", você meio que passa uma mensagem de esperança, que as coisas podem sempre melhorar, é isto mesmo? E como está o seu momento, está bem ou ainda esperando um novo Sol para você?
Taís: Ainda me sinto só no mundo. Às vezes penso que esse é meu caminho. Às vezes acho que não, acredito que vou encontrar nobreza em algum outro olhar. Quem sabe…

EB: Para terminar, já está projetado um show de estreia para o disco. Quais seus planos e quando poderemos conferir isto?
Taís: Acho que em junho estaremos levando o show para o máximo de lugares possíveis. Também vamos fazer umas intervenções com meu piano nas ruas do RJ e SP.

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