Entrevista: A identidade, inspirações e os desafios D'As Trinca

A's Trinca em show na Casa de Cultura Raul Seixas/Foto: Lucas Lima

"Três minas no vocal e um DJ no vinil". Assim se apresentam A's Trinca, na faixa "Se Identifica". O grupo de rap proveniente da Cidade Tiradentes, zona leste de São Paulo, é formado por Kel Fidelis, Nina, Nay Lopes e o DJ X-Jay. Em uma estrada longa, que ficou  firme mesmo em 2012, as garotas suaram para chegar ao primeiro álbum, "Identidade (Lado A)", lançado no final do ano passado.

"Eu e a Kel cantamos juntos desde 2000. Participamos de diversos grupos, em diversas formações, mas sempre estávamos juntas nestes grupos. Mais ou menos em 2005, a Nina começou a cantar com a gente e em 2010 paramos com tudo. Mas eu sempre gostei muito, continuei escrevendo e resolvi cantar sozinha. Escrevi "No Me Gusta", no final de 2011, e mostrei pra Kel. Ela gostou, pediu pra participar da música e em outro dia falei: 'vamos reunir o grupo de novo?' E, assim, surgiu A'S Trinca", conta Nay Lopes, a mais falante do grupo.

Daí em diante vieram os shows, um EP e um dos maiores desafios que tiveram até hoje, o X-Factor Brasil. A vivência no programa inspirou uma das canções mais críticas do "Identidade", "Padrões da Farsa".

Kel Fidelis em show no Parque Raul Seixas/Foto: Lucas Lima

"Eu acho que muitas pessoas ainda não pegaram o contexto inicial desta música. Esta canção surgiu depois que a gente saiu do X-Factor. Tudo que a gente fala nesta música é o que a gente viveu lá. Queriam que vestíssemos determinado estilo de roupa, maquiagem que não tinha a ver com a gente. A maioria das coisas que passamos lá, está neste letra", explica Nay. "E nós não saímos do X-Factor só por causa do padrão de beleza, mas também por outros padrões que a mídia impõe. Por exemplo, a gente recebia uma lista de música e eles perguntavam qual música da lista nós queríamos cantar. Ou eles pediam para selecionarmos três músicas, e, entre as três, eles escolhiam uma", completa.

Mas entre os lados negativos, existem também as coisas boas. As garotas perceberam o público aumentar desde o X-Factor, não se arrependeram e dizem que participariam de novo. Com exceção de Kel Fidelis, que não curtiu muito o confinamento do reality show: "A imposição deles pra gente, foi muito forte. Foi bom pela visibilidade, ter mostrado a gente na televisão. Não fomos maltratadas. Mas tinha muita gente ali de padrão social alto, então, olhavam para gente como se quisessem dizer 'o que elas estão fazendo aqui?'. Isso entre os participantes. A produção nos tratou super bem, mas viver aquilo de novo, eu não viveria. Na verdade, eu já nem queria ter ido, mas fui voto vencido (risos)", conta Kel.

Já durante este processo todo, o primeiro álbum d'As Trinca estava sendo projetado. E demorou dois anos para que a primeira parte do disco fosse pra pista. Nas composições, Nina cuida mais da parte de melodia, Nay e Kel fazem as letras. Elas selecionam um assunto e escrevem o que vivem.

Foto: Lucas Lima

Entre o estúdio e o show, preferem bem mais se apresentarem para o público. "Eu não tenho paciência de passar a voz, de gravar", conta Nina. "A gente é mais povão (risos). Aquela coisa de calor humano, sabe?", diz Nay. "No estúdio, as meninas tem que me deixar nervosa pra cantar, no show eu já vou nervosa, então tudo bem", completa Kel Fidélis em tom humorado.

O Lado B de "Identidade" já está sendo preparado e tem previsão para sair do forno neste primeiro semestre. "Este será o lado b de nossa identidade, sacou? (risos). Teremos muitas coisas diferentes, que fogem do rap. Um pouco de samba, MPB, coisas que também gostamos", conta Nay Lopes. "Nós colocamos previsão, mas a previsão do Identidade estava era de dois anos atrás", avisa, aos risos, Nay.

Enquanto conversam com nossa reportagem, as garotas se preparam para uma pequena amostra ao vivo, antes da discotecagem de KL Jay, na Casa de Cultura Raul Seixas, em Itaquera. Em três faixas, "Se identifica", "Cantei" e "Padrões da Farsa", as três cantoras, com o apoio do DJ X-Jay, mostraram um pouco da intensidade, consistência e sincronia de "Identidade" para um bom público que frequentava o parque em um domingo nublado, com alguns indícios de garoa.



"Musicalmente e pessoalmente nós evoluímos bastante. Mudamos muito de opinião, em muitas coisas. Antes, nós rejeitávamos ter músicas mais comerciais, hoje tudo bem, desde que não fuja da nossa essência. As vezes temos que nos enquadrar em algumas coisas para conseguir algo, mas se é algo fora da nossa ideologia, não dá", ressalta Nay. "Com o convívio nós vamos amadurecendo. Acho que isto é do ser humano, independente D'As Trinca, independente do rap", completa Nina.

Agora, nos resta aguardar pelo lado b de "Identidade", que será disponibilizado também em disco físico, junto com o lado a, que, por enquanto, só está nas plataformas digitais. "Espero que se identifiquem", pontua Nay Lopes.


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