Resenha: de Fortaleza para o Brasil, do Brasil para o mundo; os 20 anos de Cidadão Instigado

Foto: Lucas Lima

Cinco minutos para às 21h30. Lá fora a noite é fria, aqui, já começa a esquentar. A atmosfera diz que algo grandioso vai acontecer, pessoas, antes sentadas, se levantam e vão em direção do palco. As luzes se apagam e uma vinheta passa pelos ouvidos de todos. A locutora anuncia: "Próximas atrações no Sesc Pompeia: Arnaldo Antunes, Curumin...", são dadas as orientações de segurança e, finalmente, o anúncio: "com vocês, Cidadão Instigado".

Os rapazes sobem ao palco, um por um, com máscaras de papelão nas cabeças. Fernando Catatau é o último. Aparece com uma capa preta, deixa um tom de mistério. Inicialmente sem acompanhamento de sua guitarra. "É do Povo", trecho do filme "A Noite do Espantalho", ecoa pela comedoria do Sesc. Canção presente no primeiro EP do grupo. As máscaras são retiradas e o show começa para valer.

Se alguém visse somente esta parte, tiraria a conclusão que o show dos rapazes do Cidadão Instigado é totalmente estético, visual. Nem tanto. É bom destacar também que a concepção artística do palco é do diretor teatral Felipe Hirsch. Tirando os remelexos de Catatau, o próprio praticamente não fala com o público. As pausas entre as músicas são curtas. Pedrada atrás de pedrada. A ordem do repertório é cronológica.

Foto: Lucas Lima

Do primeiro EP, "Cidadão Instigado", ao último álbum, "Fortaleza". "Zé Doidim", "Os Urubus Só Pensam Em Te Comer", Besouros e Borboletas" e muitas outras foram apresentadas com êxito. Edy Trombone, um dos convidados especiais, leva delírio à plateia ao executar virtuosamente seu instrumento. O público começa quieto, mas logo se solta. Pessoas de todas as idades, dos mais jovens aos mais velhos, dançando com seus pares as músicas românticas, extravasando nas mais intensas. Em "Homem Velho", canção do disco "Uhuuu", o coro da plateia tem seu ápice: "Massa rara/ De braços dados/ Com uma nativa/ Oferecendo-lhe canções bonitas".

Depois de uma hora e meia o show termina, mas, é claro, tem o bis. Catatau agradece e faz as devidas apresentações. banda e equipe. A última música é "Quando a Máscara Cai", do último disco. Encerram com a plateia extasiada. Assim como no início, colocam as máscaras e saem lentamente. No telão, uma imagem com os dizeres: "Fora Temer".



Das lembranças restou pouco
Pouco só por resistir
Procurando essa criança eu até envelheci
Sem sentir…sem sentir
Fui criado na varjota
Bairro onde eu vivi
Se hoje lembro a sua história é porque eu insisti
Sinto tanto na memória que nem sei se estive ali

Caminhava do Meireles indo até a p.I.
Vendo o povo nas ruas era bom estar ali
Era tanta inocência e eu sonhava em partir
Mal sabia que um dia tudo isso iria mudar
Quando eu fui para o concreto eu só queria ver o mar
E era tanta diferença e eu só pensava em voltar
                                           
                             Trecho da música "Fortaleza"


Esta é a festa de 20 anos dos garotos de Varjota, bairro de Fortaleza. Caminhada longa, desde os meados para o fim dos anos 90, quando o desinteresse pelo rock se alastrou pela mídia, mas a criatividade de bandas como o Cidadão Instigado é forte o suficiente para deixar o grupo de pé. Seria subestimar a criatividade do grupo dizer que eles tocam como o Pink Floyd, Joy Division ou Raul Seixas. O Cidadão Instigado soa como Cidadão Instigado, e, em 20 anos, alcançou o sucesso, não o comercial, mas o de estar vivo.

Cidadão Instigado no Sesc Pompeia: Fernando Catatau (voz e guitarra), Regis Damasceno ( baixo, guitarra e vocal), Clayton Martin (bateria e sampler), Dustan Gallas (teclados, guitarra e vocal), Rian Batista (violão, baixo, teclados e vocal). Músicos convidados: Edy Trombone (trombone e percussão), Thomas Rohrer (saxofone).

Lucas Lima
Registro do show do Cidadão Instigado no dia 17 de junho, às 21h30, no Sesc Pompeia

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Fotos: Lucas Lima

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