Entrevista: a delicada euforia de Soledad

Foto: Haroldo Saboia

Soledad, nome sucinto e forte.  Força essa expressa no primeiro álbum da cantora, homônimo, lançado no início deste ano em diversas plataformas digitais. Cearense, já está há dois anos em São Paulo. Sua voz, mesmo que suave, consegue captar a intensidade exposta na sonoridade de suas músicas. Esta mistura, que encanta e seduz seus ouvintes, forma a delicada euforia de Soledad.

Com show marcado para o próximo dia 15 em São Paulo, a cantora conversou com o Eufonia sobre a atual cena feminina no país, além de claro, detalhes de sua carreira e de seu primeiro álbum. Leia a entrevista na íntegra:

EB: Soledad é um álbum que vem se devolvendo desde quando?
Soledad: Desde 2012. Na época pesquisava sobre a influência da música e da dança em nossos sentidos cognitivos, em como isso poderia desencadear sensações transcendentais e espirituais, aquilo de entrar em transe, sabe?! Comecei a me aproximar dos movimentos surrealista, psicodélico e cigano e decidi que gostaria de montar um show em que pudesse trazer isso à tona. Não tinha disco na cabeça. Nesse momento, pensava mais em tentar atingir essas experiências, algo bastante pessoal mesmo, aí me juntei com dois amigos músicos maravilhosos de Fortaleza, Thiago Almeida e Bruno Rafael. Fechei um repertório que tinha de músicas de compositores cearenses a Erkin Koray, um guitarrista e compositor turco, e armamos o show. Até que em 2014 esse projeto, que ali se chamava "As Nuvens Serão Um Colar de Margaridas", foi aprovado no Laboratório de Música do Porto Iracema das Artes, um equipamento do Centro Cultural Dragão do Mar. Lá ele começou a ganhar mais cara de álbum. Passamos cincos meses trabalhando (de arranjos a cenário) com Gui Amabis, que era meu tutor e quem sugeriu a mudança de nome para "Soledad". Foi nessa hora que decidi trabalhar somente com composições cearenses contemporâneas, de amigos, e que tinha que gravar um disco. Nessas alturas minha vida não poderia mais estar em outro lugar que não fosse a música, mudei. Foto: Haroldo Saboia

EB: "Jardim Suspenso" , segunda faixa do álbum, tem a participação de Fernando Catatau. A música consegue ter ao mesmo tempo uma sonoridade intensa, uma letra dramática e sua voz suave. Esse resultado se deve a parceria com Catatau na canção?
Soledad: Na verdade ela já existia nessa intensidade quando fechamos o arranjo, mas eu e os outros músicos que produziram o disco, Vitor Colares, Bruno Rafael, Guilherme Mendonça e Felipe Lima, sentíamos falta de algo que costurasse justamente isso que você falou: sonoridade, voz e letra. Tinha que fazer o desabafo que a canção faz gritar e que fosse delicado e violento ao mesmo tempo. O que, por vezes, o amor é! Nessa decidimos que seria um solo de guitarra, até pra pesar mais o "roquenrol" da música, e que o Fernando teria essa sensibilidade. Aí liguei, pedi e ele topou! (risos). A gente gravou aqui em São Paulo e ele em Fortaleza. Chorei quando ouvi os áudios que ele mandou das guitarras! É muito doido você ver a música-sentimento se tornar "concreta". Foi emocionante porque essa é uma das canções do disco que mais mexem comigo.

Foto: Jamille Queiroz


EB: “Soledad” é um álbum de pouco mais de 30 minutos. Antigamente se fazia muitos álbuns curtos e vejo que isso está voltando, muitos artistas estão optando até por lançar EPs em vez de álbuns cheios por exemplo. Você vê que é melhor trabalhar em menos músicas , já que tantas coisas são lançadas hoje em dia e de repente pode se perder muita coisa se for lançado em uma quantidade maior?
Soledad: As fórmulas mudaram bastante nesses tempos, né?! Muito por conta dos meios que temos para gravar, distribuir e consumir um disco. Gravar e distribuir não é barato. Quanto mais faixas, mais caro e as pessoas também não compram mais tanto, mesmo com a volta dos vinis. Isso tudo influencia na hora de decidirmos como faremos. Falo me referindo, e me incluindo, ao meio independente e a um contexto menos impessoal. A internet tornou tudo mais acessível e rápido, um movimento que combina com o ritmo capitalista, e boa parte das "peoples" não querem perder tempo ouvindo um disco inteiro. No Bandcamp, por exemplo, conseguimos ver num gráfico se o disco e as músicas foram ouvidas inteiras ou não. Você pode ficar surpreso! As pessoas querem escolher uma música e colocar no seu playlist do spotify, nessa muita gente opta por lançar um single mês a mês, por exemplo, por ser mais prático e barato, por acreditarem que essa é a melhor maneira de se promover e que a coisa não vai se perder, como você disse. Pessoalmente, o que me motivou a fazer um disco pequeno foram duas coisas: a primeira era a minha fixação com o número 9. O disco ficou com oito faixas porque a nona caiu e eu não queria colocar uma música que descaracterizasse só pra fechar o número. e o outro é que pra fazer sentido pra mim, com o que eu quero comunicar e exorcizar, elas tinham que estar juntas ali, nenhuma a mais e nem a menos. Já foi difícil ter que superar o corte de uma delas, foi como cortar o pedaço de um filme massa que você tá vendo. Uó!

Não acredito muito em fórmulas, até porque elas mudam o tempo todo a medida que a globalização evolui, a gente decide se adequar ou não. Pode ser que um dia um single baste para mim e para a história que eu quero contar.



EB: Eu vejo a cena atual com nomes femininos fortes e vindos de todo o país. Como você analisa isso?
Soledad: É A MELHOR COISA DO MUNDO!! VIVA AS MUJERES!!!

A música é um meio exageradamente machista e, sinceramente, a gente cansou. Estamos decididas a existir com todo a nossa potência, e isso não é só no meio musical. Tá no cinema, na política, nas escolas ocupadas, em tudo que estiver vivo. Esse movimento tem acompanhado a história da luta feminista e, consequentemente, do nosso empoderamento. Somos completamente capazes de criar, de comandar, de filosofar, de pensar, de arranjar uma música ou fazer uma letra... muito ao contrário do que vem sendo dito há milênios. Esse papo de que a mulher nunca se destacou na música porque não se esforçou pra isso é balela. Nunca nos permitiram, essa é a verdade. Acabamos escondidas! Agora a porra toda mudou né?! O feminismo nos ajuda a existir, fortalece, nos encoraja! A arte é (também) um ato político, então é natural que se expresse na música, que tenhamos mulheres, como a Karina Buhr, que falam sobre isso de uma maneira tão forte, consciente e contagiante. O mundo precisa se conscientizar disso, QUE VENH@M MAIS, NINGUÉM NOS SEGUR@!

EB: Então a música ainda serve para confrontar e questionar questões políticas e sociais ou isso não funciona mais?
Soledad: A arte será (também) sempre um ato político

EB: Sua música é um retrato do seu interior? Ouço muitos dizerem que fazer arte é se colocar para fora. É isso ou ainda é mais complexo?
Soledad:  Totalmente. É um álbum de fotografia todinho e gigante, isso pra mim! E se tratando de gente nunca é tão simples, né?! Como diz Zé Ramalho: "Freud explica", ou Lacan no meu caso.



EB: Qual é o maior desafio de uma cantora com um trabalho de estreia?
Soledad:  Sinceramente? Eu tô descobrindo ainda! Gravar o disco já foi um desafio gigante e ainda não terminou. Somente essa semana consegui meios pra mandar prensar. Acho que vou começar a sentir isso agora, depois do show de lançamento. Mas posso te dizer que, sendo uma mulher nordestina nunca vista em uma cidade como São Paulo, tem sido uma viagem dura as vezes. Espero conseguir ultrapassar isso.

EB:  O que esperar de um show seu?
Soledad: Sinceramente, não sei te dizer bem. Cada show é diferente, é uma energia que me bate, é uma música que a banda toca de outro jeitinho, é uma entrega que tem a ver com o que eu sinto naquele dia/momento, e isso, é intenso.


Show em São Paulo

Serviço
Soledad no CCSP -  Rua Vergueiro, 1000 - Paraíso, São Paulo
15 de abril às 19h 
Entrada gratuita 
Complementam a banda: Carlos Gadelha e Allen Alencar (guitarras), Felipe Faraco (baixo) e Xavier Francisco (bateria).
Mais informações em: https://www.facebook.com/events/1253382801448400/

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