35 anos de IRA!: Nasi compara década de 80 com atual e fala sobre os desafios e definições da banda

O Ira!, uma das bandas mais emblemáticas do rock nacional, está completando três décadas e meia de existência. Brigas, drogas e sucessos fazem partes desta história. A banda começou em 1981, quando Edgard Scandurra chamou Nasi para cantar com ele ( os dois estudavam no mesmo colégio). Antes do Ira!, Edgard tinha uma banda chamada Subúrbio, com esta compôs a música "Pobre Paulista", que veio a se tornar um dos hits e uma das músicas mais polêmicas do Ira!

O fato é que, 35 anos depois, o grupo paulista continua de pé, apesar de terem ficado um bom tempo separados. Em 2007, a banda anunciou seu fim diante de brigas internas e processos. Na época, a separação gerou várias polêmicas, com discussões ofensivas expostas na grande mídia. Em 2014 o Ira! anunciou sua volta, com uma nova formação. Desde então, seguem em turnê, com seus shows elétricos, e agora também com os folks. Nasi nos contou um pouco mais sobre as novas apresentações e a trajetória do Ira! Confira a entrevista:

Foto: Lucas Lima - UOL



EB: Existe algum álbum que demonstre a essência do Ira! ? Se sim, por quê?
Nasi: - Essa é uma pergunta que sempre fazem pra gente de formas diferentes, e na verdade, existem respostas diferentes para perguntas deste tipo. Muitos discos do Ira! tem nossa essência. Acho que os dois primeiros têm um lado “mod”. O "Psicoacústica"(1988), assim como o "Invisível Dj"(2007) e o "Você Não Sabe Quem eu Sou"(1998) tem um lado experimental. O "Meninos da Rua Paulo"(1991) tem uma essência parecida com os dois primeiros. O Ira! não tem uma cara única. Tem essa comunicação entre um power pop, que está bem claro em discos como  "Mudança de Comportamento"( 1985), "Vivendo e Não Aprendendo"(1986) e "Meninos da Rua Paulo", mas tem esse lado experimental, que podem ser percebidos no Psicoacústica e no Você Não Sabe Quem Eu Sou.


EB: Qual foi o maior "perrengue" que o Ira! passou nesses 35 anos?
Nasi:  Eu não diria perrengue, mas sim desafios. Passamos por desafios que todas as bandas boas têm que passar. Acho que o maior desafio que o Ira! passou foi o seu fim, que teve um caráter muito traumático e polêmico. Conseguimos voltar. Esse foi o maior desafio que enfrentamos, voltamos e voltamos com muito sucesso.

EB: É melhor sair em turnê hoje em dia ou era melhor nos anos 80/90?
Nasi: É óbvio que era melhor no universo dos anos 80/90. Hoje eu estou no universo do YouTube, no universo em que os programas de televisão ficam escolhendo a qualidade de um artista. Eu vim dos tempos dos festivais, e hoje, programas de televisão tentam selecionar qualidades e modos que os artistas têm que ter. Atualmente tem tantas coisas diferentes, tantas comunicações e solidões, que eu acho terríveis. Mas para deixar de forma clara, os anos 80 e 90 eram muito melhores, perdeu playboy!




Ira! Folk

Recentemente o Ira! começou a turnê folk, que nada mais é do que as canções clássicas em formato voz e violão, porém mais suave do que os tradicionais acústicos. Nasi, Edgard e Daniel Scandurra, filho de Edgard e integrante da nova formação do grupo, vem fazendo shows lotados em diversos teatros do Brasil. Os hits fazem parte do repertório, mas também há espaço para canções mais "obscuras", como "Perigo"e "Culto de Amor". Mesmo com os shows folks, o Ira! segue com a turnê elétrica.


EB: Vocês agora estão com um projeto folk, não deixando de fazer também os shows elétricos. Como surgiu esta ideia e como vem sendo a recepção do público?
Nasi:  É um show onde a gente ouve mais o público, e o público nos ouve mais. Existem mais espaços de silêncio. A ideia veio pra gente ocupar espaços, que geralmente são refratários para uma banda de rock, com barulho, pessoas de pé, etc e tal.

  


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Projetos Paralelos

Tanto Nasi quanto Edgard sempre tiveram carreiras solos e bandas paralelas. Scandurra chegou a participar de uma das mais emblemáticas bandas de punk do país, As Mercenárias. Além disso, outras parcerias com Sandra Coutinho (Mercenárias) e  Arnaldo Antunes completam seu currículo. Atualmente divide seu tempo com o Ira!, a banda Pequeno Cidadão, voltada para o público infantil, e com o projeto Tape & Scandurra, em Parceria com Silvia Tape.

                                  

Nasi não fica atrás. Em 1982 integrou a power banda de pós punk, "Voluntários da Pátria", grupo que gravou apenas um álbum, em 1984. Em 1991 mergulhou na carreira solo com o grupo "Nasi e os Irmãos do Blues". A banda acabou virando referência no blues nacional. Em 2006 lançou em conjunto com diversos convidados o disco "Onde os Anjos Não Ousam Pisar", com canções de rap, soul e rock. Depois disso ainda lançou mais três álbuns solos, e vem divulgando o seu mais recente, Egbé, um disco com releituras e duas  músicas inéditas.
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EB: Vejo que vocês dividem o tempo com diversos projetos paralelos. Os fãs do Ira! encaram isso de boa ou rola um certo ciúmes? 
Nasi: Eu vou ser bem direto, até porque a pergunta foi muito direta e foi uma boa pergunta. Eu não vou deixar que os fãs da minha música sejam a torcida organizada da minha banda. Eu quando faço música, e acredito que falo isso também pelo Edgard, eu faço ela para mim. Eu acredito que tenha pessoas, assim como acho que o Edgard imagina, que gostam do tipo de música que eu faço. Eu não faço música “modinha” e nem o Edgard. Eu não quero agradar todo mundo, eu quero dar às pessoas que tenha conexão com o tipo de gosto musical que eu tento imprimir. Agora, se existe ciúmes ou não, vou falar um negócio para vocês, ciúmes de fã, ciúmes de torcedor de futebol... Eu já não sei nem lidar com ciúmes pessoais, vou lidar com ciúmes de fã?
                       
EB: Muitas bandas , até mais no exterior do que no Brasil, vem divulgando e fazendo turnês de despedida. Vocês já chegaram a pensar nisso ou o Ira! ainda tem muita lenha para queimar?
Nasi: Nós não vamos fazer uma turnê de despedida, nunca encararíamos dessa maneira. A hora que o Ira! for embora, a gente não vai falar que é uma turnê de despedida, a gente só vai fazer nosso último show.

EB: Para finalizar, o que podemos esperar do Ira! em 2017?
Nasi: Mais do melhor da gente, o que às vezes pode ser pouco, mas é muito.


Curiosidades acumuladas em 35 anos

  • A música Flores em Você, do álbum Vivendo e Não Aprendendo (1986), foi abertura da novela "O Outro", da Rede Globo;
  • O nome inicial da banda era grafado sem o ponto de interrogação, e foi inspirado no Exército Republicano Irlalndês ( Irish Republican Army);
  • João Gordo ( Ratos do Porão) e Clemente Rodrigues ( ex Inocentes, Plebe Rude) iniciaram uma briga com Nasi em um show do Ira!. Segundo João, Nasi quebrou uma garrafa no palco e cuspiu sangue em uma espectadora;
  • A banda praticamente fez uma troca de bateristas com os Titãs. Charles Gavin, antes no Ira!, foi para os Titãs e André Jung, que estava nos Titãs, se juntou ao Ira!;
  • O Ira! já foi acusado de xenofobia pela música "Pobre Paulista", também do "Vivendo e Não Aprendendo. Segundo Edgard, a música critica por metáforas políticos, o poder e a repressão. Ainda segundo o guitarrista, a canção não foi feita de maneira clara por ter sido escrita no tempo da ditadura;
  • Quando Nasi saiu da banda, Edgard assumiu os vocais em dois shows. Na época, Nasi teria recebido uma liminar com objetivo de obrigá-lo a comparecer ao show, este que já estava marcado com antecedência. Ainda assim se recusou;
  • O Acústico MTV é o disco mais bem sucedido da banda. Na época vendeu cerca de 300 mil cópias, ganhando disco disco de platina dupla.
  • O Ira! dividiu o palco com o Ultraje a Rigor no Rock In Rio 2001. Em 2015 a banda voltou para o festival, desta vez tendo como convidados o rapper Rappin Hood e o cantor de soul, Toni Tornado
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      Agradecemos ao Nasi e sua assessoria por reservar um tempo para nos responder 

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